Hora do lanche na Oficina do Roberto.
Na Oficina do Roberto nenhuma placa
anunciava o horário de abertura e fechamento. O funcionamento seguia sua
intuição, o bom senso, as necessidades e as urgências. Era comum abrir aos
domingos e vê-lo se deslocar de madrugada para atender aos amigos.
A Oficina do Roberto era mais do que uma
simples oficina, pois, no dia a dia, servia também de consultório e local de
encontro. Sim, o Roberto consertava motores,
casamentos, amizades e aconselhava a garotada nas tomadas de decisões. Fazia
isso com naturalidade. Muitas vezes sem pronunciar palavras, apenas escutando e
sendo o ombro amigo.
No entanto, na rotina dos trabalhos
cotidianos, havia um momento especial e esperado com ansiedade: era a hora do
lanche. Acontecia no meio da tarde, lá pelas 15h.
A voz de mamãe chegava num tom alto e
prolongado:
- Robeeeeeeertooooo. Caféééé.
Ou simplesmente:
- Robeeertooo.
Geralmente seguiam as velhas gozações
dos amigos:
- Hora da mamadeira!
- Leitinho pro Beto!
Ele nem ligava. Era mesmo a hora de
parar por alguns minutos.
Obediente, subia as escadas acompanhado
por um séquito.
Lá em cima, perto de mamãe, os gozadores
ficavam mancinhos:
- Benção, vovó!
- Oi, Dona Arminda!
- Tiiiiaaa!,
O café era tradicional: café, leite, pão
e manteiga. Vez por outra os bolos, rabanadas ou canjica.
A louça mais marcante, uma Duralex marrom
transparente, era incrivelmente resistente. Xícaras e pires caiam no chão, quicando várias vezes,
sem quebrar. Mas quando quebrava, era assustador: fazia um estrondo e se
fragmentava em milhares de pedacinhos. Meses depois ainda furávamos os pés nos
caquinhos.
Na oficina do tio Roberto é onde tenho grande parte das lembranças mais marcantes do titio. O lugar escuro, sujo e com cheiros característico das oficinas (para não mencionar os os posteres) é o que, hoje em dia, podemos caracterizar como oficina raiz. Mas na época era só a oficina mesmo, um dos principais palcos da imensa rede de amizades e solidariedade construída pelo tio Roberto. Para mim era agradável estar ali. Entrar ou sair da casa pela oficina era como utilizar uma passagem secreta na minha mente inventiva da infância. Nunca soube, talvez pela idade e pela naturalização do espaço que sempre existiu como extensão da casa, quem trabalhava ali ou quem apenas estava de passagem. Todos era tratados como iguais. Desses personagens que acompanharam titio me vem forte à lembrança o Miquinha. Uma pessoa típica desse ciclo construído pelo tio Roberto. Tinha uma paciência rara comigo (o menor dos primos e, é claro, muitas vezes uma criança chata, mesmo que eu discorde disso). Junto com Miquinha e titio, outra personagem inesquecível da oficina do tio Roberto era a Coca-Cola de 2 litros em garrafa de vidro. Atenção, é importante que seja exatamente assim. Talvez um litro e meio. Mas ser garrafa de vidro é parte essencial da lembrança. As vezes que tive o privilégio de tomar um gole daquela coca, no copo de boteco, marcaram minha infância.
ResponderExcluirRenan, sobrinho.
Muito bom.
ResponderExcluirEra mais do que uma oficina, mas também era um oficina de raiz. Aquela que em Campo Grande se diz de "Fundo de Quintal".
Surgiu do improviso e permaneceu provisória, se adaptando às novas necessidades. A garagem, onde Roberto consertava bicicletas e depois motos, se transformou em oficina.
Uma ressalva Renan: Roberto era um chato com limpeza e organização. Aquela bagunça aos olhos infantis era incrivelmente limpa por comparação. Vc nao terá a imagem do Roberto sujo de graxa. Os amigos sacaneavam: parece um viadinho.
Gilberto, irmão.