quinta-feira, 5 de abril de 2018

Animais 01: porcos, galinhas e cachorros na infância e adolescência.


Animais 01
            
           Carol, você disse que herdou do Roberto o gosto por animais, o que me levou a pensar naqueles que tivemos na infância e início da adolescência.
            Começarei por um absurdo, na visão de hoje: caçávamos passarinhos com atiradeiras e espingardas de ar comprimido. Nada louvável. Era a mentalidade de época, um senso comum, só questionado mais tarde. Não esqueçamos que Campo Grande era a Zona Rural do Rio. Herdamos hábitos do campo, como caçar e aprisionar passarinhos.
            Fazer atiradeiras demandava arte e técnica. Percorríamos matagais em busca da forquilha com a forma e a madeira perfeita. A seguir tirávamos a casca do galho e providenciávamos uma lenta secagem. Preferíamos o elástico das câmaras de bicicletas, cuja tensão era melhor do que as das câmaras de automóveis. O couro comprávamos ou aproveitávamos de cintos e bolsas velhas. A decoração era opcional, mas Roberto não abria mão. As dele tinham sempre uma “frescura” característica, produzida com ferro quente ou tinta.
            As espingardas de ar comprimido vieram depois. Roberto logo dominou o mecanismo, desmontando-as completamente. Com isso, conseguia mais pressão. Descobriu também um chumbinho - o Diábolo – que permitia precisão no tiro. Nessa época abandonamos a caça aos passarinhos. As armas serviam para brincarmos de tiro ao alvo e, no máximo, para matar baratas e lagartixas.
            Os primeiros animais foram porcos, galinhas e cachorros. Já havia porcos quando compramos a casa. Papai só organizou o local, criando cubículos cimentados e com bicas próximas, as quais mantínhamos mangueiras ligadas. Ele estimulava o uso da água para molharmos os animais e limparmos o chiqueiro. Transformamos aquilo numa boa brincadeira; a corrida dos cocôs. Cada qual com sua mangueira, escolhia um cocô de porco e o empurrava com o fluxo da água em direção ao ralo. Era falta grave atrapalhar a trajetória do cocô do concorrente, mas acontecia o tempo todo. As vezes as desavenças viravam guerra de água.
Nem tudo era agradável. Não gostávamos dos dias de matança, normalmente no Natal. Chegamos a impedir a morte de alguns porquinhos pelos quais tínhamos adquirido afeição e até dado nomes. Impedir é muito forte. Eram doados e não sabíamos mais de seus destinos. Esse era um princípio: comer porquinhos só anônimos.
            Havia sempre galinhas no quintal, algumas no galinheiro e outras soltas. Não gostávamos de limpar o galinheiro. Fazíamos por obrigação e seguindo uma escala. O prazer maior era alimentá-las. Chamávamos as galinhas com um som típico, produzido com a língua tremendo entre os dentes, e jogávamos o milho, estimulando as disputas. Claro que tínhamos as preferidas. Essas escapavam da escolha para o almoço de domingo. Roberto era especialista em pegá-las. Rapidamente voltava com uma debaixo do braço. Um galo branco ficou famoso: o mister Cocó.
            Os cachorros eram de médio ou grande porte, nunca pequenos, considerados cachorrinhos de madame. A primeira pela qual tivemos afeição foi a Duquesa, uma vira-lata simpática e puxa saco do Roberto. Ficava alegre quando me via, mas, com ele, se mijava toda. Morreu após o parto de uma grande ninhada. O veterinário diagnosticou como eclampsia. Nossos preferidos eram os pastores alemães, formando uma longa geração de Kings. Roberto se referia a cada um deles em especial. Eu já não os diferenciava. Na minha memória aparecem como se fossem um só, à exceção do primeiro deles. Eram grandes e estabanados. Em pé, colocavam as patas no peito de um adulto.
            Roberto vivia arranhado porque se embolava com os cachorros em intermináveis brincadeiras. Parecia briga de verdade, com direito a mordidas. As dos cachorros eram suáveis. Já as do Roberto eram à vera. Dar banho neles para mim normalmente era obrigação. Para o Roberto era pura diversão. Na verdade, tomava banho junto com eles, depois ficava cheirando a sabonete anti-pulgas. A alimentação não era facilitada pela ração, como hoje. Precisávamos cozinhar panelões de angú com bofe ou outra carne barata. Uma alimentação desequilibrada que provocava queda de pelos e constantes desarranjos intestinais.

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