Animais 01
Carol, você disse que herdou do Roberto o gosto por
animais, o que me levou a pensar naqueles que tivemos na infância e início da adolescência.
Começarei por um absurdo, na visão de hoje: caçávamos
passarinhos com atiradeiras e espingardas de ar comprimido. Nada louvável. Era
a mentalidade de época, um senso comum, só questionado mais tarde. Não
esqueçamos que Campo Grande era a Zona Rural do Rio. Herdamos hábitos do campo,
como caçar e aprisionar passarinhos.
Fazer atiradeiras demandava arte e técnica. Percorríamos
matagais em busca da forquilha com a forma e a madeira perfeita. A seguir tirávamos
a casca do galho e providenciávamos uma lenta secagem. Preferíamos o elástico
das câmaras de bicicletas, cuja tensão era melhor do que as das câmaras de
automóveis. O couro comprávamos ou aproveitávamos de cintos e bolsas velhas. A
decoração era opcional, mas Roberto não abria mão. As dele tinham sempre uma
“frescura” característica, produzida com ferro quente ou tinta.
As espingardas de ar comprimido vieram depois. Roberto
logo dominou o mecanismo, desmontando-as completamente. Com isso, conseguia
mais pressão. Descobriu também um chumbinho - o Diábolo – que permitia precisão
no tiro. Nessa época abandonamos a caça aos passarinhos. As armas serviam para
brincarmos de tiro ao alvo e, no máximo, para matar baratas e lagartixas.
Os primeiros animais foram porcos, galinhas e cachorros.
Já havia porcos quando compramos a casa. Papai só organizou o local, criando
cubículos cimentados e com bicas próximas, as quais mantínhamos mangueiras
ligadas. Ele estimulava o uso da água para molharmos os animais e limparmos o
chiqueiro. Transformamos aquilo numa boa brincadeira; a corrida dos cocôs. Cada
qual com sua mangueira, escolhia um cocô de porco e o empurrava com o fluxo da
água em direção ao ralo. Era falta grave atrapalhar a trajetória do cocô do
concorrente, mas acontecia o tempo todo. As vezes as desavenças viravam guerra
de água.
Nem
tudo era agradável. Não gostávamos dos dias de matança, normalmente no Natal.
Chegamos a impedir a morte de alguns porquinhos pelos quais tínhamos adquirido
afeição e até dado nomes. Impedir é muito forte. Eram doados e não sabíamos
mais de seus destinos. Esse era um princípio: comer porquinhos só anônimos.
Havia sempre galinhas no quintal, algumas no galinheiro e
outras soltas. Não gostávamos de limpar o galinheiro. Fazíamos por obrigação e
seguindo uma escala. O prazer maior era alimentá-las. Chamávamos as galinhas
com um som típico, produzido com a língua tremendo entre os dentes, e jogávamos
o milho, estimulando as disputas. Claro que tínhamos as preferidas. Essas
escapavam da escolha para o almoço de domingo. Roberto era especialista em
pegá-las. Rapidamente voltava com uma debaixo do braço. Um galo branco ficou
famoso: o mister Cocó.
Os cachorros eram de médio ou grande porte, nunca
pequenos, considerados cachorrinhos de madame. A primeira pela qual tivemos
afeição foi a Duquesa, uma vira-lata simpática e puxa saco do Roberto. Ficava
alegre quando me via, mas, com ele, se mijava toda. Morreu após o parto de uma
grande ninhada. O veterinário diagnosticou como eclampsia. Nossos preferidos
eram os pastores alemães, formando uma longa geração de Kings. Roberto se
referia a cada um deles em especial. Eu já não os diferenciava. Na minha memória
aparecem como se fossem um só, à exceção do primeiro deles. Eram grandes e
estabanados. Em pé, colocavam as patas no peito de um adulto.
Roberto vivia arranhado porque se embolava com os
cachorros em intermináveis brincadeiras. Parecia briga de verdade, com direito
a mordidas. As dos cachorros eram suáveis. Já as do Roberto eram à vera. Dar
banho neles para mim normalmente era obrigação. Para o Roberto era pura
diversão. Na verdade, tomava banho junto com eles, depois ficava cheirando a
sabonete anti-pulgas. A alimentação não era facilitada pela ração, como hoje.
Precisávamos cozinhar panelões de angú com bofe ou outra carne barata. Uma
alimentação desequilibrada que provocava queda de pelos e constantes
desarranjos intestinais.
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