segunda-feira, 30 de abril de 2018

Roberto e seus amigos doidos.


Roberto e seus amigos doidos.

Roberto tinha uma coleção de amigos doidos para hospício nenhum botar defeito. Era fácil aparecer naquele grupo, bastava ser normal.
Ele era criterioso. Maluco genérico não tinha vez. E tinha razão. É fácil ser completamente destrambelhado. Difícil é ser um especialista. Ter a capacidade de transformar uma atividade cotidiana, acessível a todos, em algo especial. Valia as pequenas loucuras, como fazer círculos perfeitos e compactos com a fumaça do cigarro,  até as mais ousadas.
Na galeria dos loucos havia o dos patins, do carrinho de rolimãs, da moto, do barco, do balão, do violão. E por aí a fora.
Alguns tiveram lugar especial no pódio. Me lembro do doido da bunda ralada. A princípio o fato não tem nada de especial. Todos somos capazes de ralar a bunda. A questão é como aquela bunda foi ralada?
Roberto e Antônio Edson contavam isso às gargalhas.
Ao terminar os bailes no clube Luso Brasileiro de Campo Grande, a garotada se exibia. Naquela ocasião a moda eram os patins e os carrinhos de rolimãs. O exibicionismo ia num crescendo. Carros passaram a puxar, em alta velocidade, os mais ousados. Entre eles estava o dono da referida bunda, que, não satisfeito em ser puxado, resolveu arriar a calça. O fez com perfeição. Se tornou um especialista em mostrar a bunda enquanto patinava. A bunda branca, ainda sem nenhum arranhão, provocava aplausos, risinhos nervosos e protestos indignados.
Até que um dia, numa manobra mal feita, ele se desequilibrou e caiu de bunda sobre o asfalto áspero.
Ao Ooooooo!!!!!! De surpresa, seguiram-se as vaias e os comentários de “bem feito”. Tudo perfeitamente suportável, até os curativos dolorosos e constrangedores. O problema eram as perguntas:
- Sua bunda vai bem?
- Está melhor da bundinha?
- E aí? Pronto pra outra? Tem que ralar.
Confesso que as vezes tinha dificuldade para identificar o doido da história.
Por exemplo, Roberto dizia:
- Antônio Édson é muito doido - isso era um elogio. Pula de patins sobre mais de dez pessoas deitadas.
Não  me lembro qual foi o Record dele, mas, para mim, os verdadeiros loucos estavam deitados no chão. Falei a respeito disso com ele, que me tranquilizou:
- Fica calmo, Gil! O risco é só para o primeiro e o último.
- Como assim?
- É que, se eu perder o tempo exato do salto, tropeço do primeiro e me esborracho no último. Entendeu?
Entendi. Melhor não discutir com maluco.

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