O Papagaio 01.
Tenho a
impressão de que ele esteve conosco desde sempre, mas chegou em 1966, quando
Roberto tinha 11 anos.
Papagaio.
Assim era chamado. A referência ao animal virou nome. Papagaio ou Loro. Que
ironia! Logo ele, um especialista em palavras, ficou sem uma especial para
nomeá-lo.
Gostávamos de
especular quanto tempo viveria. Roberto cravava 100 anos. Não sei de onde tirou
tanta convicção, mas não negociava nem um ano à menos. Nas rodas de “papo
furado”, na sombra da amendoeira do outro lado da calçada, fazíamos
intermináveis contas e todo exagero era permitido. Chegamos aos 250. O avô do
Serginho, nosso vizinho, tinha um papagaio desde criança e dizia ter pertencido
ao seu pai. Novas e intermináveis contas.
O Papagaio logo
aprendeu a falar Roberto. Ou melhor: Robertiiiiiiiiiiiiho. Prolongava a sílaba
na tonalidade que os amigos gritavam do portão. Eram poucas as palavras nítidas
em meio a uma conversa sem fim. Robertiiiiiinho era imbatível. Melhor do que
Robertiiiiiiinho, só Deuuuusa, uma moça que trabalhou conosco, e “Papai
Soares”, mas isso ele só falou uma vez.
O Papagaio
também tinha vocação artística, cantava “Para Pedro, Pedro para. Para Pedro,
Pedro para” e "Meu coração. Não sei porquê. Bate feliz ..."
Enchia o saco,
mas agradava papai, que, tomando uma cervejinha, alimentava intermináveis
conversas.
Era o ano de
1966 e estávamos no interior da Bahia.
Papai, com seu intrépido e lotado fusquinha, deixara a rota do litoral,
enveredando pelo interior, para conhecer a cachoeira de Paulo Afonso, no rio
São Francisco. Como a viagem era cansativa
em decorrência das estradas serem de terra e esburacadas, não perdíamos as
raras oportunidades para descansar nos pequenos povoados. Numa dessas ocasiões, um rapaz ofereceu um
papagaio. Paramos num bar e ele
insistiu. Papai, de gozação, disse que compraria se ele falasse “Papai Soares”.
Imediatamente eu e Roberto pressionamos o bicho, repetindo o mantra “Papai
Soares”. Não é que deu certo. Para delírio meu e de Roberto, o papagaio falou.
Tudo bem! Pode não ter sido exatamente
isso, mas juramos que foi. Nunca mais repetiu. Nem precisava. Papai, que já
queria um papagaio, resolveu comprar aquele.
A emoção
resolvera a parte principal: o papagaio era nosso e se somaria as galinhas,
porcos e cachorros. Sem problemas,
porque a boa vontade era grande e o quintal espaçoso. Restava resolver o
problema imediato de transporte. Não foi
difícil, pois alguém apareceu oferecendo uma grande gaiola.
Assim, mal
iniciávamos o percurso, que nos levaria ao Rio Grande do Norte, passamos a ter um simpático e falante
companheiro. Ele e uma imensa gaiola. No
banco de trás fusquinha íamos eu, Roberto, Sebastião, um amigo de papai, o
papagaio e muitas outras coisas. Afinal de contas na mala do fusquinha mal
cabia o básico, sendo necessário distribuir o restante pelo interior do
veículo!
Para não
deixar a falsa impressão de caos e desconforto, registro que aquela foi a mais divertida e importante
viagem da nossa família no período da nossa infância.
Roberto não
acertou na previsão, mas o Papagaio viveu conosco por mais de 50 anos.
Tive o privilégio de conhecer o louro.... uma graça... amava qdo ele chamava pelo Roberto.... e a famosa Deusa que eu só conheci por intermédio dos sonoros chamados desse papagaio esperto que tanto me divertiu.....
ResponderExcluirAldenise, prima