sábado, 14 de abril de 2018

Animais do Roberto 09: Papagaio 1


O Papagaio 01.

Tenho a impressão de que ele esteve conosco desde sempre, mas chegou em 1966, quando Roberto tinha 11 anos.
Papagaio. Assim era chamado. A referência ao animal virou nome. Papagaio ou Loro. Que ironia! Logo ele, um especialista em palavras, ficou sem uma especial para nomeá-lo.
Gostávamos de especular quanto tempo viveria. Roberto cravava 100 anos. Não sei de onde tirou tanta convicção, mas não negociava nem um ano à menos. Nas rodas de “papo furado”, na sombra da amendoeira do outro lado da calçada, fazíamos intermináveis contas e todo exagero era permitido. Chegamos aos 250. O avô do Serginho, nosso vizinho, tinha um papagaio desde criança e dizia ter pertencido ao seu pai. Novas e intermináveis contas.
O Papagaio logo aprendeu a falar Roberto. Ou melhor: Robertiiiiiiiiiiiiho. Prolongava a sílaba na tonalidade que os amigos gritavam do portão. Eram poucas as palavras nítidas em meio a uma conversa sem fim. Robertiiiiiinho era imbatível. Melhor do que Robertiiiiiiinho, só Deuuuusa, uma moça que trabalhou conosco, e “Papai Soares”, mas isso ele só falou uma vez.
O Papagaio também tinha vocação artística, cantava “Para Pedro, Pedro para. Para Pedro, Pedro para” e "Meu coração. Não sei porquê. Bate feliz ..."
Enchia o saco, mas agradava papai, que, tomando uma cervejinha, alimentava intermináveis conversas.
Era o ano de 1966 e estávamos no interior da Bahia.  Papai, com seu intrépido e lotado fusquinha, deixara a rota do litoral, enveredando pelo interior, para conhecer a cachoeira de Paulo Afonso, no rio São Francisco.  Como a viagem era cansativa em decorrência das estradas serem de terra e esburacadas, não perdíamos as raras oportunidades para descansar nos pequenos povoados.  Numa dessas ocasiões, um rapaz ofereceu um papagaio.  Paramos num bar e ele insistiu. Papai, de gozação, disse que compraria se ele falasse “Papai Soares”. Imediatamente eu e Roberto pressionamos o bicho, repetindo o mantra “Papai Soares”. Não é que deu certo. Para delírio meu e de Roberto, o papagaio falou. Tudo bem! Pode  não ter sido exatamente isso, mas juramos que foi. Nunca mais repetiu. Nem precisava. Papai, que já queria um papagaio, resolveu comprar aquele.
A emoção resolvera a parte principal: o papagaio era nosso e se somaria as galinhas, porcos e cachorros.  Sem problemas, porque a boa vontade era grande e o quintal espaçoso. Restava resolver o problema imediato de transporte.  Não foi difícil, pois alguém apareceu oferecendo uma grande gaiola. 
Assim, mal iniciávamos o percurso, que nos levaria ao Rio Grande do Norte,  passamos a ter um simpático e falante companheiro. Ele e uma imensa gaiola.  No banco de trás fusquinha íamos eu, Roberto, Sebastião, um amigo de papai, o papagaio e muitas outras coisas. Afinal de contas na mala do fusquinha mal cabia o básico, sendo necessário distribuir o restante pelo interior do veículo! 
Para não deixar a falsa impressão de caos e desconforto, registro que  aquela foi a mais divertida e importante viagem da nossa família no período da nossa infância.
Roberto não acertou na previsão, mas o Papagaio viveu conosco por mais de 50 anos.

Um comentário:

  1. Tive o privilégio de conhecer o louro.... uma graça... amava qdo ele chamava pelo Roberto.... e a famosa Deusa que eu só conheci por intermédio dos sonoros chamados desse papagaio esperto que tanto me divertiu.....

    Aldenise, prima

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