segunda-feira, 30 de abril de 2018

Espingarda de ar comprimido: tiro nos cocos.


 Espingarda de ar comprimido: tiro nos cocos.           

Em nossa pré-adolescência houve a moda das espingardas de ar comprimido. O funcionamento era simples. Bastava destravá-las e forçar o cano para baixo, “quebrando-o“, ou seja, deixando em posição  90 graus em relação ao cabo.  Nesse momento se colocava o chumbinho e se trazia o cano para a posição original. Estava pronta para atirar. Bastava regular a mira. A operação era repetida a cada disparo.
            As mães ficavam apavoradas e tentavam estabelecer limites. O excesso de zelo decorria de vários acidentes ocorridos. Eu e a Dilma – uma senhora que trabalhou conosco – fomos atingidos  na perna, ao entrarmos na linha de tiro do Roberto. Ele montou um alvo no final de um corredor, no meio do qual havia uma porta. Eram chumbinhos especiais, semelhantes a pequenos dardos. O que atingiu a minha perna era azul e a da Dilma laranja. Providenciais aqueles pelinhos. Foi só puxar por eles e colocar merthiolate no buraco. Essa era a pior parte: colocar merthiolate. O troço ardia uma enormidade.
            Em outra ocasião acionei o gatilho com a espingarda ainda “quebrada’, na posição de 90º, fazendo o cano voltar violentamente para a posição original. O tranco foi tão forte que rachou o cabo de madeira da arma.
            Roberto era exímio atirador e treinava em palitos de fósforos. De seus tiros trago uma imagem triste e outra divertida. A triste lembrança é de uma rolinha atingida na cabeça. Caçar passarinhos era uma prática comum entre os meninos de Campo Grande, uma região, na ocasião, ainda considerada rural. Foi o último passarinho que matamos.
            Lembrança divertida é a dos tiros nos cocos do vizinho. Os coqueiros eram situados próximos ao nosso muro e os frutos eram alvos tentadores. Havia ainda um efeito especial porque, quando atingidos, eles jorravam água. O esguicho alcançava o nosso lado. Uma festa! Até que um dia …
O vizinho procurou mamãe mostrando os cocos atingidos. Ele os balançava produzindo o barulho de chocalhos porque parte dos chumbinhos ficaram no interior. Ele pensou ser uma praga que secava os coco. Mas acabou descobrindo que as pragas eram os vizinhos.

Hora do lanche na Oficina do Roberto.


            Hora do lanche na Oficina do Roberto.

Na Oficina do Roberto nenhuma placa anunciava o horário de abertura e fechamento. O funcionamento seguia sua intuição, o bom senso, as necessidades e as urgências. Era comum abrir aos domingos e vê-lo se deslocar de madrugada para atender aos amigos.
A Oficina do Roberto era mais do que uma simples oficina, pois, no dia a dia, servia também de consultório e local de encontro. Sim, o Roberto  consertava motores, casamentos, amizades e aconselhava a garotada nas tomadas de decisões. Fazia isso com naturalidade. Muitas vezes sem pronunciar palavras, apenas escutando e sendo o ombro amigo.
No entanto, na rotina dos trabalhos cotidianos, havia um momento especial e esperado com ansiedade: era a hora do lanche. Acontecia no meio da tarde, lá pelas 15h.
A voz de mamãe chegava num tom alto e prolongado:
- Robeeeeeeertooooo. Caféééé.
Ou simplesmente:
- Robeeertooo.
Geralmente seguiam as velhas gozações dos amigos:
- Hora da mamadeira!
- Leitinho pro Beto!
Ele nem ligava. Era mesmo a hora de parar por alguns minutos.
Obediente, subia as escadas acompanhado por um séquito.
Lá em cima, perto de mamãe, os gozadores ficavam mancinhos:
- Benção, vovó!
- Oi, Dona Arminda!
- Tiiiiaaa!,
O café era tradicional: café, leite, pão e manteiga. Vez por outra os bolos, rabanadas ou canjica.
A louça mais marcante, uma Duralex marrom transparente, era incrivelmente resistente. Xícaras  e pires caiam no chão, quicando várias vezes, sem quebrar. Mas quando quebrava, era assustador: fazia um estrondo e se fragmentava em milhares de pedacinhos. Meses depois ainda furávamos os pés nos caquinhos.





Roberto e seus amigos doidos.


Roberto e seus amigos doidos.

Roberto tinha uma coleção de amigos doidos para hospício nenhum botar defeito. Era fácil aparecer naquele grupo, bastava ser normal.
Ele era criterioso. Maluco genérico não tinha vez. E tinha razão. É fácil ser completamente destrambelhado. Difícil é ser um especialista. Ter a capacidade de transformar uma atividade cotidiana, acessível a todos, em algo especial. Valia as pequenas loucuras, como fazer círculos perfeitos e compactos com a fumaça do cigarro,  até as mais ousadas.
Na galeria dos loucos havia o dos patins, do carrinho de rolimãs, da moto, do barco, do balão, do violão. E por aí a fora.
Alguns tiveram lugar especial no pódio. Me lembro do doido da bunda ralada. A princípio o fato não tem nada de especial. Todos somos capazes de ralar a bunda. A questão é como aquela bunda foi ralada?
Roberto e Antônio Edson contavam isso às gargalhas.
Ao terminar os bailes no clube Luso Brasileiro de Campo Grande, a garotada se exibia. Naquela ocasião a moda eram os patins e os carrinhos de rolimãs. O exibicionismo ia num crescendo. Carros passaram a puxar, em alta velocidade, os mais ousados. Entre eles estava o dono da referida bunda, que, não satisfeito em ser puxado, resolveu arriar a calça. O fez com perfeição. Se tornou um especialista em mostrar a bunda enquanto patinava. A bunda branca, ainda sem nenhum arranhão, provocava aplausos, risinhos nervosos e protestos indignados.
Até que um dia, numa manobra mal feita, ele se desequilibrou e caiu de bunda sobre o asfalto áspero.
Ao Ooooooo!!!!!! De surpresa, seguiram-se as vaias e os comentários de “bem feito”. Tudo perfeitamente suportável, até os curativos dolorosos e constrangedores. O problema eram as perguntas:
- Sua bunda vai bem?
- Está melhor da bundinha?
- E aí? Pronto pra outra? Tem que ralar.
Confesso que as vezes tinha dificuldade para identificar o doido da história.
Por exemplo, Roberto dizia:
- Antônio Édson é muito doido - isso era um elogio. Pula de patins sobre mais de dez pessoas deitadas.
Não  me lembro qual foi o Record dele, mas, para mim, os verdadeiros loucos estavam deitados no chão. Falei a respeito disso com ele, que me tranquilizou:
- Fica calmo, Gil! O risco é só para o primeiro e o último.
- Como assim?
- É que, se eu perder o tempo exato do salto, tropeço do primeiro e me esborracho no último. Entendeu?
Entendi. Melhor não discutir com maluco.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Roberto: pipas e bolas de gude.


      
Todo menino criado em Campo Grande nas décadas de 1960 e 1970 sabia de cor as épocas das principais brincadeiras. O ano começava com as pipas e, no início das aulas, em março, era a vez das bolas de gude. Em julho as pipas voltavam para uma curta temporada, pois logo depois, chegavam os piões, junto, novamente, com as bolas de gude.
            Não era uma divisão rígida, até porque havia pipas o ano inteiro. Nas férias esta brincadeira apenas se acentuava, tornando-se, como mamãe dizia, uma verdadeira febre. As bolas de gude realmente dividiam as temporadas, mas os piões nem sempre apareciam e, no final da década de 1970, sumiram de vez.
            Roberto, era habilidoso com as bolas de gude e, jogando à vera, acumulava centenas delas em latas de Leite Ninho. A lata guardada com mais cuidado, perto da cabeceira, continha as “olho de gato”. Com mira certeira, era o melhor no mata-mata, mas as quantidades maiores ele ganhava nos jogos de búlica e triângulo. Nas jogadas decisivas apertava os olhos, deixando um deles quase fechados, mordia os lábios e disparava. Aguardávamos com a respiração suspensa, num misto de “tomara que erre” com o orgulho de presenciar um dos bons em ação.
Roberto não gostava de futebol, a brincadeira preferida da garotada. Especializou-se em pipas e preferia soltar as que ele próprio fazia. Traziam sua marca. Todos identificavam: é do Robertinho. Várias vezes atendi a campainha e, olhado por cima do muro, via um garoto com uma pipa na mão:
- É do Robertinho. Caiu lá em casa.
Outras vezes sua pipa voava e caia em outra rua. Ele disparava de bicicleta, num “já volto”. Voltava com a pipa:
- Me entregaram.
Confiavam no Robertinho. Ele também entregava as que caia lá em casa. Eu já nem tentava esconder. Ele não dizia nada, mas me reprovava com o olhar.
Era ousado.  Buscava adversários à distância. Sua lata tinha enrolados dois carreteis “10 dos grandes”. Enquanto eu preferia aguardar e ser “buscado”, desenvolvendo estratégias defensivas, ele ia buscar longe. A garotada parava para ver: Robertinho está cruzando. Nem sempre se dava bem, mas ganhava respeito pela ousadia.


sábado, 21 de abril de 2018

De escafandro no motel: parte 2.

Complemento da História  do Motel!

A Soninha me contou o q tinham feito e complementou contando que o o Roberto pediu p ela pegar no carro um escafandro e que ela foi só com a blusa dele sobre o corpo. Parecia uma sereia. Disse que na hora entrou um carro iluminando tudo ...por um buraco da porta da garagem...
Eu nao podia deixar passar esse fato em branco. Contei p o Tonho q resolveu fazer uma brincadeira. Nós estávamos lá reunidos qdo Tonho chegou e começou a contar q tinha ido ao motel com Claudinha onde viu uma cena indescritível...uma bunda branca segurando um escafandro...nisso Soninha ficou pálida e vermelha sem falar uma palavra....kkkk eu me denunciei pois comecei arir sem parar....kkkk coisas do Bebeto

Ana Lúcia, amiga

Nasce o Blog do Roberto


Assim nasceu o Blog do Roberto

A ideia do Blog do Roberto nasceu em Campo Grande durante um churrasco, na casa do Antônio Padilha, em homenagem a Helen, sua filha.
Me afastei para atender o telefone e, enquanto falava, ouvi um diálogo que me chamou a atenção.
- Sabe de quem sinto falta, nessas horas?
- Hum!
- Do Roberto.
Não conhecia quem falava. O Antônio Édson interferiu dizendo:
- O irmão dele está aqui. E nos apresentou.
Naquele aperto de mão e olhar emocionado, percebi que a memória do Roberto tem uma enorme extensão e que ninguém a detém por completo. Percebi também que a História dele é também uma parte significativa das nossas. Entendi de imediato o quanto seria interessante partilharmos entre nós, nossas vivências com ele. Mais do que uma homenagem ao que passou seria o reconhecimento do que permanece vivo em nós.
Coincidiu do Renan, de partida para Curitiba, estar lá em casa. Conversamos e ele, que havia criado um blog para divulgar o seu livro, configurou o blog “Roberto Vive em nós”.
Tem sido uma experiência interessante, mas precisa se expandir para alcançar o objetivo. Para isso precisamos cavar lembranças, desde as engraçadas ou dramáticas, até aquelas pequenas, do cotidiano de quem teve o privilégio de conviver com ele.  É importante convidar pessoas para falarem de suas experiências. Coisas simples. Relatos falados ou escritos. Podemos ajudar também relatando o que ouvimos.

domingo, 15 de abril de 2018

Animais do Roberto 11: o resgate da codorna.


Papagaio e codorna

            Lembro das muitas companhias do papagaio ao longo dos seus mais de 50 anos de vida. Principalmente na fase do gaiolão, onde conviveu com passarinhos, periquitos, tartarugas, ratinhos e codorna.
A codorna foi uma de suas últimas companhias.
            Ela chegou ao gaiolão estressada. Vivia acuada e não colocava ovos. Razão para o estresse não faltava. Ela foi resgatada de uma brecha entre dois muros. Estava debilitada. Foi salva pela insistência do Roberto. A operação envolveu várias pessoas que tiveram como bonificação alguns ovinhos.
            Pois é! Logo ela, que não parou de  pôr ovos mesmo sob risco de morte, agora já não os colocava. Estresse, foi o diagnóstico do Antônio Edson. Ele sabia o que estava falando pois criou codornas, negociou com seus ovos e confeccionou chocadeiras. Explicou que são animais sensíveis, precisando de boas condições ambientais para pôr.
            Imediatamente Roberto criou uma casinha dentro do gaiolão e outros cantinhos protegidos.
Perguntei:
            - E aí, Roberto? Resolveu? Voltou a pôr?
            - Não..
            - Então não adiantou nada.
            - Calma!
            Realmente, quando voltei à Campo Grande, semanas depois, ela tinha voltado a colocar ovos.
            Roberto foi responsável pelo resgate da vida e da autoestima da codorna.


(Gilberto, irmão)

sábado, 14 de abril de 2018

Exageros 1; carro capotou e bateu no transformador do poste.

Roberto: exageros 

Meu pai contava uma história de um pega de carro que um dia um carro se perdeu na hora de da o cavalo de pau e bateu no poste ... só que o mais interessante era que cada vez que ele contava essa história o carro batia mais alto no poste até um dia ele contar que o carro bateu no transformador kkkl.. .gostava muito de zoar ele com esses exageros ...ele ficava puto ...ate que o tempo foi passando e ele começou a achar graça dele mesmo.... nos últimos momentos de vida ele olhou pra minha mãe e falou: 
Acho que eu estou exagerando kkk e deu um sorriso maroto 😊
Os ratos que ele via passar ele falava que era maior que a baby (nosso cavhorro) sem o rabo kkkkk .... que saudade disso😢

Caio, filho.

Roberto: de "escafandro" na piscina do Motel.


Roberto: de "escafandro" na piscina do Motel.

Roberto era curioso e fez da curiosidade o seu modo de vida. Aprendeu através da prática. A teoria, quando necessária, vinha depois. Especializou-se em motos, mas sua habilidade era reconhecida em diversas áreas. Tornou-se referência para profissionais inseguros com o uso de teorias acadêmicas.
                Esse é o lado profissional, mas a curiosidade do Roberto se estendia ao cotidiano. Onde houvesse um botão, uma luz piscando, lá estava ele. Parecia uma mariposa atraída pela magia do conhecimento. Eu escondia meus aparelhos eletrônicos novos por medo dele os desmontar só por curiosidade, para conhecer o mecanismo. Fez Escola Técnica e alguns cursos, mas desconfio que ia a escola para ensinar e não para aprender. Era um autodidata e gostava de trocar experiências com os amigos.
                Até aí tudo bem, mas, em se tratando do Roberto, havia exageros
                Certa ocasião foi a um motel com Soninha. No dia seguinte me contou a aventura, descrevendo os botões de controle do sistema de som, luz e TV. A cabeceira da cama, segundo ele, era fantástica. O teto da piscina se movia por controle remoto. Era possível acompanhar a variação da temperatura da água, e – o máximo! -, a água   se revolvia em ondas com um simples toque de botão.
Estava fascinado!
 Aí veio a pérola:
                - Gil, num motel como esse você não precisa nem de mulher.
                Percebeu o que falou e deu aquele sorriso sacana.
                Já que estamos num motel, ou melhor, falando de motel, há outra história inusitada.
Reza a lenda que ele usou “escafandro” na piscina de um motel: roupa, tanque de oxigênio e tudo mais. Isso ele me contou. Precisamos dar o devido desconto.
Na ocasião ele vivia a fase das pescarias e mergulhos. Todo fim de semana tinha alguma aventura diferente. O esquema ganhou impulso quando o Antônio Edson comprou uma lancha. Bem! possivelmente Roberto usou a piscina só para lavar a roupa de mergulho e os aparelhos. Mas, também é possível que tenha aproveitado para treinar a respiração, pois estava iniciando o mergulho com cilindros.
De qualquer forma, é, no mínimo estranho imaginar a cena de alguém num motel vestido para mergulho. Sem entrar no mérito do fetiche. Por comparação, acho até simpáticos os botões e luzes.  Parecem normais.  

Manias do Roberto 1: identificar pequenos barulhos


Roberto e suas manias.

Roberto tinha suas manias.
Uma delas era identificar barulhos nos carros. 
Barulhos não: barulhinhos.
Uma habilidade útil para regular o funcionamento de motores, encontrar a compressão ideal e o ponto exato de aceleração. Mas nos meus primeiros carros – calejados pelas estradas da vida - os barulhos faziam parte da identidade. Nem os considerava barulhos. Eram os meus barulhos.
Pior é que Roberto exigia minha cumplicidade. Queria que eu também identificasse pequenos ruídos. Sutilezas que só os ouvidos dele captavam.
- Escuta, Gil. Está ouvindo? É lá atrás, do lado do motorista. Escutou?
- Não.
- Espera aí.
Lá ia ele mexer em alguma coisa. Voltava satisfeito.
- Agora podemos ir. Passou. Era o banco solto.
Ele acabara de resolver um problema que eu nem sabia que existia. Um exagero. Me sentia perfeitamente capaz de identificar o barulho de uma roda caindo, de um motor explodindo e até o trepidar da tampa do capo mal fechada numa estrada esburacada. Mas ele era exigente demais. E não sossegava enquanto não concertava. Meus carros ficavam irreconhecíveis. E causava problemas. Várias vezes liguei o carro já ligado porque não escutava os ruídos característicos.
Manias do Roberto. 
Não podia ser perfeito.

Animais do Roberto 10: Papagaio 2


Papagaio 2

Voltamos ao Rio (1966) e encontramos a cidade abalada por uma das maiores enchentes de sua história. Imediatamente nos engajamos em campanhas de solidariedade. Papai instalou um autofalante no fusquinha e percorríamos os bairros  para coleta de donativos. Tivemos também a nossa tragédia particular porque a casa da vovó Maria, próxima ao canal da rua Arthur Rios, foi atingida.
E o papagaio? Onde colocá-lo?
Depois de quase dois meses juntos, ele adquirira intimidade suficiente para reivindicar um lugar privilegiado ao lado da família. Roberto foi derrotado na tentativa de instalá-lo no quarto e passou a defender a copa. Varanda, nem pensar! A polêmica foi acalorada, mas venceu a copa, com a observação de mamãe de que seria provisório. Um provisório que durou anos. Favoreceu o fato da casa estar em obras, com as paredes só emboçadas e o chão sem cerâmica. Aquelas obras do papai que levava anos para serem concluídas. Demorava tanto que ele mudava a  concepção e refazia tudo.
O Papagaio gostou. Foi a época em que mais desenvolveu a linguagem, porque participava conosco do dia-a-dia e, durante as refeições, se intrometia nas conversas.
- Cala a boca, Papagaio. Vamos falar um de cada vez.
Reclamávamos. E ele nem aí.
Um imprevisto nos obrigou a remanejá-lo, dentro da própria área.
Muito inquieto, com unhas e bico fortes, ele esburacou o tijolo e ameaçou alcançar o banheiro. Aí era demais! Além de linguarudo, era bisbilhoteiro, ameaçando nossa intimidade.
No final da tarde ele se agitava na expectativa do passeio. Roberto o colocava no guidom da bicicleta e circulava pela vizinhança. Sucesso absoluto. Todos paravam para olhá-lo e o desafiar a falar. Ele retribuía os cumprimentos, ainda que fosse apenas com um crispar de penas ou um balançar de rabo.
Por falar em penas eriçadas, ele adorava um cafuné. Fechava os olhinhos e ia abaixando a cabeça até perder o equilíbrio. Era muito engraçado vê-lo com olhar sonolento, tonto, como a perguntar: - “Onde estou? Quem sou? De onde vim?”
Não era meigo o tempo todo. Vez por outra se enfezava e dava voos rasantes em direção aos incautos. Não sei exatamente qual o critério, o certo é cismava com algumas pessoas. Tinha um temperamento apaixonado. Quando gostava, se entregava às carícias, caso contrário esbanjava mal humor e agressividade. Roberto era dos preferidos, mas também não dava mole. Resolvia as crises de mal humor do Papagaio, agarrando o bichinho e dando-lhe uma “escovada”. Como bom “Papagaio de malandro”, ele se acalmava.  Papai abusava, colocando-o no colo, dentro da camisa, na careca e nos ombros, seu lugar preferido.
Piolho, nosso amigo, foi uma das paixões o Papagaio, o que, causou ciúmes em papai. O Papagaio protegia sua nova paixão, não deixando ninguém se aproximar; nem papai. Chegou a avançar sobre ele que, indignado, ameaçou transferi-lo para o quintal,  e deixou de falar com ele por vários dias.
Tinha também nostalgias. Nessas ocasiões pouco falava e se retirava para os cantos ou galhos mais altos das árvores. As vezes voava para longe, chegando a desaparecer por dias. Roberto percorria os arredores de bicicleta e acionava sua rede de amigos, trazendo-o de volta. Quando isso se tornava frequente, cortávamos um pouco as penas de uma de suas asas. Saudades da Bahia ou falta de uma fêmea? Devo confessar aqui nossas dúvidas quanto ao sexo do Papagaio. Pensávamos nele como macho, mas alguns amigos, pretensos conhecedores, afirmavam ser fêmea. A verdade é que não o ajudamos a resolver a possível crise de identidade, pois continuamos tratando-o como macho.

Animais do Roberto 09: Papagaio 1


O Papagaio 01.

Tenho a impressão de que ele esteve conosco desde sempre, mas chegou em 1966, quando Roberto tinha 11 anos.
Papagaio. Assim era chamado. A referência ao animal virou nome. Papagaio ou Loro. Que ironia! Logo ele, um especialista em palavras, ficou sem uma especial para nomeá-lo.
Gostávamos de especular quanto tempo viveria. Roberto cravava 100 anos. Não sei de onde tirou tanta convicção, mas não negociava nem um ano à menos. Nas rodas de “papo furado”, na sombra da amendoeira do outro lado da calçada, fazíamos intermináveis contas e todo exagero era permitido. Chegamos aos 250. O avô do Serginho, nosso vizinho, tinha um papagaio desde criança e dizia ter pertencido ao seu pai. Novas e intermináveis contas.
O Papagaio logo aprendeu a falar Roberto. Ou melhor: Robertiiiiiiiiiiiiho. Prolongava a sílaba na tonalidade que os amigos gritavam do portão. Eram poucas as palavras nítidas em meio a uma conversa sem fim. Robertiiiiiinho era imbatível. Melhor do que Robertiiiiiiinho, só Deuuuusa, uma moça que trabalhou conosco, e “Papai Soares”, mas isso ele só falou uma vez.
O Papagaio também tinha vocação artística, cantava “Para Pedro, Pedro para. Para Pedro, Pedro para” e "Meu coração. Não sei porquê. Bate feliz ..."
Enchia o saco, mas agradava papai, que, tomando uma cervejinha, alimentava intermináveis conversas.
Era o ano de 1966 e estávamos no interior da Bahia.  Papai, com seu intrépido e lotado fusquinha, deixara a rota do litoral, enveredando pelo interior, para conhecer a cachoeira de Paulo Afonso, no rio São Francisco.  Como a viagem era cansativa em decorrência das estradas serem de terra e esburacadas, não perdíamos as raras oportunidades para descansar nos pequenos povoados.  Numa dessas ocasiões, um rapaz ofereceu um papagaio.  Paramos num bar e ele insistiu. Papai, de gozação, disse que compraria se ele falasse “Papai Soares”. Imediatamente eu e Roberto pressionamos o bicho, repetindo o mantra “Papai Soares”. Não é que deu certo. Para delírio meu e de Roberto, o papagaio falou. Tudo bem! Pode  não ter sido exatamente isso, mas juramos que foi. Nunca mais repetiu. Nem precisava. Papai, que já queria um papagaio, resolveu comprar aquele.
A emoção resolvera a parte principal: o papagaio era nosso e se somaria as galinhas, porcos e cachorros.  Sem problemas, porque a boa vontade era grande e o quintal espaçoso. Restava resolver o problema imediato de transporte.  Não foi difícil, pois alguém apareceu oferecendo uma grande gaiola. 
Assim, mal iniciávamos o percurso, que nos levaria ao Rio Grande do Norte,  passamos a ter um simpático e falante companheiro. Ele e uma imensa gaiola.  No banco de trás fusquinha íamos eu, Roberto, Sebastião, um amigo de papai, o papagaio e muitas outras coisas. Afinal de contas na mala do fusquinha mal cabia o básico, sendo necessário distribuir o restante pelo interior do veículo! 
Para não deixar a falsa impressão de caos e desconforto, registro que  aquela foi a mais divertida e importante viagem da nossa família no período da nossa infância.
Roberto não acertou na previsão, mas o Papagaio viveu conosco por mais de 50 anos.

domingo, 8 de abril de 2018

Animais do Roberto 08: mico x papagaio


Bem lembrado, Renan

                O papagaio estava lá em casa desde 1966, quando voltamos de uma viagem de carro ao nordeste (depois comento o fato com mais detalhes) e comandava tranquilo o zoológico. Era o cara e afirmava a presença com prolongados gritos de Robertiiiiiiiiiinhooo.
Os micos chegaram aos poucos sem, a bem da verdade, que Roberto tivesse participação direta. Apenas estimulou a permanência deles.
                Tudo começou numa manhã de domingo com o Caio avisando que um mico estava comendo as bananas da tartaruga. Melhor dizendo, comendo bananas com as tartarugas. Roberto, imediatamente, distribuiu bananas em lugares estratégicos, atraindo, no decorrer de poucas semanas, vários miquinhos. O passo seguinte foi se aproximar com cautela. Para resumir a história, os micos passaram a comer nas mãos de todos e a frequentar o interior da casa.
                Esses eram os micos, mas estamos nos referindo a um mico em especial que, segundo Roberto, era aquele primeiro.
                Você uma vez me contou que, certa vez se divertia observando as brincadeiras de Roberto como o miquinho, quando o papagaio apareceu para tomar satisfações. Aproximou-se agressivo, eriçando as penas e falando coisas incompreensíveis. Boa coisa não devia ser. Cheio de ciúmes, resolveu espantar o concorrente do colo do Roberto. Deve ter pensado: “Qualé, chegou agora e já quer sentar na janela”. O mico, já se sentindo também senhor do pedaço, não se intimidou, desceu do colo do Roberto e encarou o papagaio.
A cena seguinte foi no mínimo estranha. Dá para imaginar uma briga de mico com papagaio? Pois foi o que você presenciou e me contou. Foi difícil separar os apaixonados desafetos. Acalmado os ânimos, Roberto trouxe uma banana, fez os dois ficarem juntos e deu uma carinhosa bronca. A partir daí as brigas diminuíram. Não se transformaram em bons amigos, até porque o papagaio era temperamental e narcisista. Apenas fizeram um acordo de cavaleiros no qual ficou estabelecida uma distância regulamentar, o que não evitava leves escaramuças. Se o jeito conciliador do Roberto não funcionava, mamãe aparecia e dava uma espanada geral.

(Gilberto, irmão)

sábado, 7 de abril de 2018

Animais do Roberto 07: um peixe chamado zoiudo.

Meu pai ja criou até peixes ornamentais...eu lembro que tinha um zoiudo.
Teve 2 goiamu ( não sei se é assim mesmo que escreve) caranguejo. 
Cavalo, coelhos (muitos! Pq teve um casal que procriou ) , gato , hamster e ratazana de laboratório.

Animais do Roberto 06: cavalos, peixes, marrecos ...


Não exagere, Caio.
                Preciso defender meu irmão. Não eram tantos animais assim. Ele nunca colocou um canguru ou um elefante, lá em casa.
                Um cavalo, sim. E convenhamos que, um cavalo no quintal de uma casa, fica maior do que um elefante. Levei um susto. Papai estava sentado tomando a tradicional cervejinha. Perguntei o que era aquilo. Ele coçou a cabeça. Depois entendi ser um gesto de cumplicidade. Encontrei com Roberto que falou feliz:
                - É um presente para Carolina.
                Podia ser pior. Um leão, por exemplo.
Roberto tinha um amigo cujo adorável leãozinho fazia sucesso. Até que um dia fugiu e entrou na casa do Padilha, no início da Sacramento Blaque. Foi uma confusão danada! Antônio, o Padilhão, - cuja história é cheia de episódios bizarros – se indignou e fez discurso em defesa dos cachorros. Eu nem sabia que ele gostava tanto do “Sheik”. Roberto intermediou o conflito explicando que era um filhote, em fase de crescimento. Piorou. A tensão aumentou. O  Padilha só se acalmou com o compromisso do leão ser levado para um lugar adequado, mas, prudentemente, reforçou o controle sobre o portão.
Galinhas antecederam patos, marrecos, patos d’água e um ganso. Esse último durou pouco. Na primeira corrida que deu em mamãe, foi expulso à vassouradas. Papai estimulou contribuindo um laguinho bem irrigado, onde as aves visitantes conviviam com as da casa, junto com as tartarugas.
A tentativa de manter caranguejos lago, não deu certo. Eles foram transferidos para o antigo cubículo dos porcos. Nunca acertamos na alimentação dos bichinhos. Para compensar, eu e Roberto, jogávamos água o tempo todo. Eles duravam pouco. Logo o azulado do casco se transformava em marrom. Alguns entravam no ralo sendo difícil da resgatá-los. Roberto, especialista em pegar caranguejos no mangue, se dava mal, porque, na manilha, a perigosa pata, ficava livre. Uma estratégia suicida usada por ele, era se deixar morder e puxar o bicho preso ao dedo.
Ele dizia.
- Não doi não.
- Tudo bem, mas continue usando o seu dedo.
Ele ria.
Teve a fase dos peixes. Ele construía os aquários, comprando as placas de vidro e usando silicone.  Vazavam com frequência e, certa vez, o maior deles, explodiu, espalhado os peixes. Sendo aquário do Roberto, tinha escafandrista com vestimenta rosa, soltando bolhinhas, iluminação lilás, areia colorida, carrinhos, grutas e plantas exóticas. Uma superlotação. Conviviam peixes de vala com aquisições caras. Certa vez trouxe um peixe assassino, assim classificado por ele. Ficou separado, por precaução. Até que um dia, Roberto resolveu colocá-lo junto aos demais. Sem problemas. Conviveu em harmonia. Queda de um mito ou mais um efeito do jeito robertiniano de ser?

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Animais do Roberto 05: Willians, o mico.

E o mico de estimação (lembram o nome?), que apesar da liberdade plena sempre vinha quando o tio Roberto chamava. Claro que tinha certo incentivo de uma banana ou uma fruta qualquer. Mas sempre chegava e ficava em cima dele, na época que era cabeludo, bagunçando o cabelo dele.

(Felipe, sobrinho)

Willian

(Carolina, filha)

Animais do Roberto 04: Judy e Blau, os coelhinhos

Essa historia o Caio vai saber melhor que eu. 
Havia dois coelhos, a Judy e o Blau. Um tinha ataque epilético e o outro algum problema que não lembro. Então foi feita esta paródia daquele funk conhecido: 
"Qual a diferença entre a Judy  e o Blau?
 Um anda doente e o outro passal mal...". 
Mais uma da série humor negro.

Animais do Roberto 03: cachorros e tartarugas.


Cachorros e tartarugas

Registrei numa agenda um episódio sobre os bichos de Campo Grande.
                Estacionei o carro e, antes de tocar a campainha, mamãe abriu o portão.
                - Nossa! Rápido. Nem toquei a campainha.
                Ela respondeu:
                - Ouvi os latidos. Sei quando alguém chega pelos cachorros.
                No alto da escada estava um Rush Siberiano de olhos azuis, balançando o rabo, todo receptivo. Próximo a mim, na base da escada, um basset pulava em minhas pernas pedindo carinho. A essa altura Roberto tinha chegado e disse:
                - Faz carinho na barriga, senão ele não para.
                Fiz. Há muito não via aquela raça, que na infância chamávamos de cachorro salsicha. A essa altura apareceu um vira-latas, certamente o mais animado e, por pouco, não me derrubou ao se entrelaçar em minhas pernas, mordendo o cordão do tênis.
                Sobre a mesa da cozinha havia uma caixa de sapatos com uma pequena tartaruga. Roberto a retirou e colocou sobre a mesa. Ela andou em minha direção porque havia migalhas de pão. Mamãe trouxe uma folha de alface e eu fiquei alimentando a bichinha.
                Lembrei do casal de tartarugas que vivia solto no quintal. Roberto explicou que a tartaruguinha era filha de uma delas. O macho tinha morrido há muito tempo quando papai a queimou junto com folhas de árvores. Normalmente ele abria um buraco e as enterrava, mas naquele dia, eram tantas e estavam tão secas que resolveu queimá-las, esquecendo-se de verificar se ali estavam as tartarugas.
A fêmea voltara a procriar recentemente porque Roberto trouxe um macho da casa da Dona Georgina, cujo viveiro foi desativado. Ela tinha o estranho hábito de seguir as pessoas, preferencialmente o Roberto. As vezes parecia agressiva porque esticava o pescoço e abria a boca ao se aproximar. Mas só queria estar próxima.
                Perguntei sobre a convivência das tartarugas com os cachorros. Roberto disse que era normal. Normal até a hora da comida. Se as tartarugas se limitassem às folhas, tudo bem, caso contrário, os cachorros regiam. Usavam uma estratégia simples: viravam as tartarugas com a barriga para cima e comiam sossegados.
Roberto ainda explicou que a confusão maior era na época das mangas porque, segundo ele, cachorros e tartarugas adoravam.
Era só o que faltava: cachorros vegetarianos.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Animais 02: ele sempre trazia um bicho

Muitos animais... meu pai sempre teve jeito com bicho. E sempre me incentivava. Lembro  que ele sempre trazia um bicho pra eu ver. Cachorro , gatos,  cavalos (❤)... sempre quando ele tocava a campanhia e mandava me chamar eu ja sabia... era algum bicho que ele queria me mostrar. E se fosse uma lagarta sempre era batizada de Filomena 🤭😂

(Carolina, filha)

Pegas 01

Muito bom! ❤
Ele realmente era diferenciado no volante... Ele teve uma uno 1.6R que era difícil segurar ele ... como o meu tio disse o traçado e a ousadia faziam a diferença... adorava levar a criançada para o pega kkkl.. . Lembro que além de levar ele ensinava como sair fora quando a polícia chegasse🚓 ... tinha sempre um lugar para assistir e não correr risco ... tudo era pensado kkkl até o Xandi e Deda entraram nessa brincadeira ...

(Caio, filho)

Animais 01: porcos, galinhas e cachorros na infância e adolescência.


Animais 01
            
           Carol, você disse que herdou do Roberto o gosto por animais, o que me levou a pensar naqueles que tivemos na infância e início da adolescência.
            Começarei por um absurdo, na visão de hoje: caçávamos passarinhos com atiradeiras e espingardas de ar comprimido. Nada louvável. Era a mentalidade de época, um senso comum, só questionado mais tarde. Não esqueçamos que Campo Grande era a Zona Rural do Rio. Herdamos hábitos do campo, como caçar e aprisionar passarinhos.
            Fazer atiradeiras demandava arte e técnica. Percorríamos matagais em busca da forquilha com a forma e a madeira perfeita. A seguir tirávamos a casca do galho e providenciávamos uma lenta secagem. Preferíamos o elástico das câmaras de bicicletas, cuja tensão era melhor do que as das câmaras de automóveis. O couro comprávamos ou aproveitávamos de cintos e bolsas velhas. A decoração era opcional, mas Roberto não abria mão. As dele tinham sempre uma “frescura” característica, produzida com ferro quente ou tinta.
            As espingardas de ar comprimido vieram depois. Roberto logo dominou o mecanismo, desmontando-as completamente. Com isso, conseguia mais pressão. Descobriu também um chumbinho - o Diábolo – que permitia precisão no tiro. Nessa época abandonamos a caça aos passarinhos. As armas serviam para brincarmos de tiro ao alvo e, no máximo, para matar baratas e lagartixas.
            Os primeiros animais foram porcos, galinhas e cachorros. Já havia porcos quando compramos a casa. Papai só organizou o local, criando cubículos cimentados e com bicas próximas, as quais mantínhamos mangueiras ligadas. Ele estimulava o uso da água para molharmos os animais e limparmos o chiqueiro. Transformamos aquilo numa boa brincadeira; a corrida dos cocôs. Cada qual com sua mangueira, escolhia um cocô de porco e o empurrava com o fluxo da água em direção ao ralo. Era falta grave atrapalhar a trajetória do cocô do concorrente, mas acontecia o tempo todo. As vezes as desavenças viravam guerra de água.
Nem tudo era agradável. Não gostávamos dos dias de matança, normalmente no Natal. Chegamos a impedir a morte de alguns porquinhos pelos quais tínhamos adquirido afeição e até dado nomes. Impedir é muito forte. Eram doados e não sabíamos mais de seus destinos. Esse era um princípio: comer porquinhos só anônimos.
            Havia sempre galinhas no quintal, algumas no galinheiro e outras soltas. Não gostávamos de limpar o galinheiro. Fazíamos por obrigação e seguindo uma escala. O prazer maior era alimentá-las. Chamávamos as galinhas com um som típico, produzido com a língua tremendo entre os dentes, e jogávamos o milho, estimulando as disputas. Claro que tínhamos as preferidas. Essas escapavam da escolha para o almoço de domingo. Roberto era especialista em pegá-las. Rapidamente voltava com uma debaixo do braço. Um galo branco ficou famoso: o mister Cocó.
            Os cachorros eram de médio ou grande porte, nunca pequenos, considerados cachorrinhos de madame. A primeira pela qual tivemos afeição foi a Duquesa, uma vira-lata simpática e puxa saco do Roberto. Ficava alegre quando me via, mas, com ele, se mijava toda. Morreu após o parto de uma grande ninhada. O veterinário diagnosticou como eclampsia. Nossos preferidos eram os pastores alemães, formando uma longa geração de Kings. Roberto se referia a cada um deles em especial. Eu já não os diferenciava. Na minha memória aparecem como se fossem um só, à exceção do primeiro deles. Eram grandes e estabanados. Em pé, colocavam as patas no peito de um adulto.
            Roberto vivia arranhado porque se embolava com os cachorros em intermináveis brincadeiras. Parecia briga de verdade, com direito a mordidas. As dos cachorros eram suáveis. Já as do Roberto eram à vera. Dar banho neles para mim normalmente era obrigação. Para o Roberto era pura diversão. Na verdade, tomava banho junto com eles, depois ficava cheirando a sabonete anti-pulgas. A alimentação não era facilitada pela ração, como hoje. Precisávamos cozinhar panelões de angú com bofe ou outra carne barata. Uma alimentação desequilibrada que provocava queda de pelos e constantes desarranjos intestinais.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Cavalos de pau


                Os cavalos de pau do Roberto, certamente merecem um capítulo à parte.
                Os mais impressionantes para mim eram os que dava numa estrada estreita do Rio da Prata. Ele, com precisão, dava um 180º, sem sair da estrada. Num relance já estávamos em sentido contrário. Eu fazia, precisava da largura de um campo de futebol.
                Ele pacientemente me explicava que não bastava virar o volante e puxar o freio de mão. O segredo estava em acelerar na hora certa. Tudo bem! O que ele não dizia, e talvez não soubesse, é que precisava ousadia, intuição e certa irresponsabilidade.  Isso não se encontra em livros. Claro que não conseguiria nunca porque imaginava as consequências de uma manobra mal feita.
                Um dia consegui. A coragem veio das três meninas no banco traseiro, e a precisão da manobra, das orientações do Roberto, como copiloto.
Deu tudo certo. Foi incrível! Sucesso atestado pelos gritinhos das meninas.
Guinada no volante. Puxada precisa do freio de mão e a tal aceleração que ele indicava falando e pressionando minha perna. O que deu errado, tornou meu feito ainda mais memorável. Acelerei demais e me enrolei com alguma coisa, de modo que dei outro cavalo de pau. Sucesso com as meninas e admiração do Roberto:
- Não disse que era fácil.
Fácil? Meu coração estava aos pulos.
Nunca mais tentei. Preferia ficar na plateia. De preferência com um bom livro.


Acidente de carro na adolescência 02


Acidente de carro 02

                Da série: conte somente quando os filhos tiverem mais de 25 anos.

No outro acidente estive presente com Popó e Zequinha. Era um domingo de festa lá em casa. Enquanto os adultos se distraiam. Bem! Nós também nos distraíamos. Pegamos o carro escondido e, com Roberto na direção, fomos para o Rio da Prata, um bairro próximo. Na volta, optamos por uma estrada secundária onde havia uma pedreira desativada. O grande atrativo era o “Tobogan”, uma queda brusca no asfalto que, se atravessada com alta velocidade, tirava o carro do chão.
Para lá nos dirigimos, Roberto sinalizou para entrar à esquerda, mas não conferiu. Um taxi afoito forçou a ultrapassagem. Não deu em outra: colidiram de lado. Uma batida leve. Ele parou na calçada e nós permanecemos no meio da rua. Roberto, sem carteira, e estimulado pelos demais, recuperou o controle. Ligou o carro e arrancou. O taxista percebeu e partiu em perseguição. Ele tinha um carro melhor, mas não a mesma habilidade do Roberto, que, além do mais, conhecia bem a estrada. Tentou ultrapassar duas vezes sem sucesso. Até que Roberto entrou numa curva no limite da velocidade e do traçado. O taxista tentou acompanhar e se perdeu. Derrapou pelo acostamento em direção a um terreno baldio. Sumiu! Já era! Ainda demos umas voltas de despiste e voltamos para casa. A parte mais difícil. 
Coube a mim comunicar ao papai. A lateral do motorista estava amassada e com as cores do taxi. Papai foi direto cobrar do Roberto, por mais que eu tentasse chamar para mim também a responsabilidade.  A situação era estranha, mas Roberto me tranquilizou: - Fica calmo, eu tenho cara de culpado, mesmo. Pior que era verdade. Às vezes eu aprontava, mas sempre achavam que a culpa era dele.

Lava Jato

E o lava jato, quem se lembra?
Queria seu carro bem limpinho, no capricho? Então a solução era o lava jato do Roberto.
Ele sempre dizia: É melhor um carro sujo do que um carro mal lavado. E a mulecada também caia dentro: Caio, Miquinha, Dayan e tantos outros que  viviam "ajudando" na oficina dele.
Ao final do dia, era a hora da limpeza do aspirador, só alegria e expectativa pelas moedinhas que se misturavam ao pó aspirador. Todos sorridentes, esperando a ordem do Roberto: Miquinha, dá um pulo lá na padaria e traz uma coca geladinha.

Roda de violão: "chegaram em mi casa ..."

Me lembro da casa cheia,   viola animada, repertório vasto, músicas cantadas com letra trocada e que dificilmente chegavam ao fim, mas uma singela canção sempre nos animava. 
Era mais ou menos assim:

"Chegaram em mi casa/
Cagaram em mi cama/
Mijaram em mi aguardente/
Mas como se não bastasse.../
Botaram no uuu da gente/
Ai ai ai ai tá doendo a beça/
Botaram, tiraram, tornaram a botar o ferro no uuu da gente/
Ai ai ai ai..."

Coisa fina.

(Felipe, sobrinho)

terça-feira, 3 de abril de 2018

Garatucaia: comemorando o ingresso nas faculdades e ampliando a família

Nessa vc estava, Gilberto... Era o ano de 1982 ... 
Estávamos em um acampamento e Garantucaia... lembra?
Roberto e Ronaldo  foram tentar fazer contato com a civilização.... Ficamos  eu, Soninha a Aninha e vc no acampamento, aguardando o retorno  deles com o jornal.... Época do vestibular pela Cesgranrio.... eu e Aninha havíamos prestado vestibular...ela acho que para pedagogia  ou psicologia, não lembro.... eu fiz para Direito em primeira opção  e letras em segunda... Os dois voltaram  e disseram que não  conseguiram o jornal.... teríamos que esperar  e guardar nossa curiosidade....
Qd menos esperávamos,  depois de algumas horas,  jornal chegou. Fomos surpreendidas com a notícia de que ambas haviam passado.... eu não consegui os pontos necessários para cursar direito, mas consegui para Letras . Foi muita festa.... muita  comemoração....
Voltei grávida do Rafael e, qdo soubemos  da gravidez, decidimos eu e o Ronaldo  que daríamos nosso primogênito para o Roberto  e Soninha batizarem. Sermos primos era pouco..... precisávamos estreitar mais  os nossos  laços...passamos  a ser  primos e compadres..... além de amigos, parceiros...
Depois de formada  em letras, me formei  em administração  de empresas e vcs estavam  lá...1996 e só em 2006 me formei em direito, mas nessa última o Ronaldo  já  tinha partido para o andar de cima....

(Aldenise, prima)

Moto 01: vice-campeão de motocross, com muito orgulho.

Em uma época  maravilhosa de nossas vidas, estávamos sempre  juntos.. o quarteto...
Seu Graciano (pi do Ronaldo) dizia: qdo Roberto e Ronaldo  se juntam, pode esperar que vai dar merda....kkķkkk fatooooo...
.Nesse final de semana, que não  sei qyal a data. só sei que já  éramos  casados...saímos da Ilha para torcer para o.primo que iria participar  de um enduro de motocicletas.  Lembro que era atrás do OKLAROMA motel. Tinha chovido muito na noite anterior e o local era lama.puraaaaaa...era um cai e cai o tempo todo e o Roberto em ultimo lugar o tempo quase que todo da prova.  ...Até  que quase todos os participantes caíram restando apenas o primeiro  colocado  e o Roberto que de último levou o troféu de segundo  lugar. Não perdeu tempo. Chegou.em casa e todo orgulhoso mostrou aos pais o Troféu  de vice campeão.Lembro que meus Tios.Soares e Arminda ficaram orgulhosos... Ele só  não  contou que só ele e mais um terminaram a.prova....Então  ele justificou todo sujo de barro: Eu não  menti...fui mesmo o segundo  colocado.....isso é  só  um detalhe.... o importante é  ver os coroas( se referindo aos pais) felizes.... viu como ficaram orgulhosos do filho campeâo??

(Aldenise, prima)

Friburgo: brincando no teleférico.

Mais uma do primo.... certa vez fomos os quatro  passear em Friburgo na já famosa " marisia". Recém  casados, resolvemos andar no Teleférico, na época  muito alto e a travessia era feita em frágeis cadeirinhas... Dava o maior medo.... eu e soninha ficamos apavoradas... encolhidas de medo.  Enquanto isso, o Roberto, incentivado pelo primo Ronaldo, começou a balançar as cadeiras... deixando todos os usuários  em pânico.  E, como se não  bastasse, ficou de pé  na frágil cadeirinha....não  sentia medo, para ele o perigo era diversão pura... sempre sorrindo.... gargalhando..tornava  um simples passeio uma aventura inesquecível....

(Aldenise, prima)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Carros do Roberto 08

Descrição da decoração do carro do Roberto

2 filhotes de dragão, saindo da casca do ovo, um mago, um demônio, e uma mulher mandando nudes.

(Carolina, filha)

Carros do Roberto 07

Lembro certa vez, quando eu, tio Roberto, tia Sônia, Carolina e Caio fomos passear no "Caralho". Eu não sabia ainda do "apelido carinhoso" do carro até ver que as pessoas nos pontos de ônibus, nas calçadas e todos que nós passávamos, paravam, abriam a boca e soltavam aquele sonoro "Caraaaaalhooo". Quando eu percebi, falei para o tio Roberto: "acho que as pessoas estão falando caralho". Ele deu uma risada e falou: "esse é o nome do carro". Chegamos ao nosso destino, o Boulevard, em Vila Isabel, e ao entrar no estacionamento, Carol ficou revoltada quando o carro foi descrito como "branco" pelo rapaz que anotava o tipo, placa e cor do carro.

(Mariana Padilha, "sobrinha" filha da Helen)

Carros do Roberto 06

O Bebeto, quando comprou aquele carro, que tinha como particularidade as pinturas loucas de dragões, demônios e outras figuras, divertia-se muito com as situações que eram provocadas:
1) Sempre que ele chegava a algum lugar com aquele carro, a reação das pessoas era imediata e a expressão era unânime (desculpem mas é preciso registrar na íntegra): CARAAALHO! E esse passou a ser o nome do carro, tanto que ele vivia nos chamando pra dar uma volta no "Caralho".
2) Ele contava que, certa vez, estacionou em frente a um bar para comprar cigarros, o carro todo fechado com o ar ligado e mais uma vez notou as expressões pasmas nos rostos das pessoas que se encontravam frente ao bar. Demorou-se um pouco para sair do carro, percebendo e curtindo a expectativa de todos pois, dizia ele, parecia que esperavam sair daquele carro um personagem daqueles filmes americanos, sujeito enorme, todo tatuado, mal encarado... Eis que a porta se abre e surge o Roberto, com seu rabinho de cavalo, aquele corpão musculoso que Deus lhe deu, realçado por uma camiseta cor de rosa, tamanho P, sorriso de criança no rosto. Decepção geral.
3) Tempos depois, vendeu o "Caralho" e me pediu para ir com ele pra trazê-lo de volta, após entregar o carro. Só não me disse onde seria feito o negócio. Lá fomos nós, eu o seguindo no meu carro, um Monza, e ele ao volante do "caralho". Quando dei por mim, estávamos entrando em Parada de Lucas. Quanto mais nos aprofundávamos na favela mais chamávamos atenção. Em marcha reduzida, o "caralho" passou a ser seguido por vários curiosos e não é preciso dizer, comecei a entrar em pânico. Finalmente chegamos à casa do comprador, um vereador que morava numa bela casa, na meiuca da favela. Estacionamos e abrindo caminho entre a pequena multidão que se aglomerava  em volta do "caralho", entramos na casa do sujeito, que já nos esperava no portão. Ao receber as chaves o cara já a passou a um moleque, que presumimos fosse seu filho, o qual saiu fazendo um tour pela favela.
Sentamo-nos, com a expressão da máxima "tranquilidade" expressa nos nossos rostos enquanto o sujeito pegava uma maleta de onde retirou vários maços de notas de dólar. Contado o dinheiro, tudo certinho conforme combinado, viria a parte mais fácil: sair da favela carregando todo aquele dinheiro.
Nesse momento, entrou em cena uma das características do Roberto, a calma, a tranquilidade para lidar com situações aparentemente difíceis: Leley, fique calmo, ligue o ar, feche os vidros, trave as portas, vá saindo devagar e não pare pra ninguém. E lá fomos nós, rumo à Av. Brasil, deixando o "Caralho" pra trás.
Acho que minhas pernas só pararam de tremer quando chegamos ao Mendanha. Me lembro que virei para o Roberto e gritei: Caraaaalhoooo!

Me lembro da risada dele até hoje.

(Wanderley Malta, amigo)

domingo, 1 de abril de 2018

Acidente de carro 1


Roberto sofreu dois acidentes de carro na adolescência.

                No primeiro deles, aos 17 anos (1972), capotou na Rio Santos, próximo à Grota Funda, em direção ao Recreio dos Bandeirantes.
                Fomos acordados de madrugada pelo vizinho Laerte Mota. Ele nos tranquilizou, dizendo que Roberto tinha sofrido um acidente de carro, mas estava bem. Se encontrava na casa da namorada, a Alcina (parente do Laerte), onde se refugiou para evitar a bronca imediata. Motivos não faltavam. Estava todo errado: menor, sem carteira e com o carro “roubado”; pego sem permissão do papai. Nem eu sabia. Fez como em outras vezes. Abriu a garagem e, com o motor desligado, empurrou o carro até uma distância segura. Ligou o motor e partiu. Um crime perfeito que foi (literalmente) por água à baixo.
A intervenção do Laerte foi providencial. Nos acompanhou de carro até o local do acidente e, calmo e bem articulado, providenciou o reboque e tomou outras providências. Difícil foi encontrar o local do acidente porque chovia muito e o trecho não  tinha iluminação pública. As indicações de Roberto e do Fernandão, o colega que o acompanhava, eram imprecisas.  Finalmente localizamos o carro no meio de um matagal, numa ribanceira, dois metros abaixo do nível da estrada. O carro – certamente em velocidade excessiva - se desgovernou num bolsão d’ água. Deslizou pelo acostamento e caiu na ribanceira. Por sorte estavam com cinto de segurança e o impacto foi amortecido pelo mato e pela água.
Papai, que por muito menos dava broncas monumentais, nessas horas surpreendia pela calma e ponderação. Tinha a percepção correta de que o fato em si já trazia ensinamentos, e preferia o diálogo.

(Gilberto, irmão)