Cachorros e
tartarugas
Registrei numa
agenda um episódio sobre os bichos de Campo Grande.
Estacionei
o carro e, antes de tocar a campainha, mamãe abriu o portão.
-
Nossa! Rápido. Nem toquei a campainha.
Ela
respondeu:
-
Ouvi os latidos. Sei quando alguém chega pelos cachorros.
No
alto da escada estava um Rush Siberiano de olhos azuis, balançando o rabo, todo
receptivo. Próximo a mim, na base da escada, um basset pulava em minhas pernas
pedindo carinho. A essa altura Roberto tinha chegado e disse:
-
Faz carinho na barriga, senão ele não para.
Fiz.
Há muito não via aquela raça, que na infância chamávamos de cachorro salsicha. A
essa altura apareceu um vira-latas, certamente o mais animado e, por pouco, não
me derrubou ao se entrelaçar em minhas pernas, mordendo o cordão do tênis.
Sobre
a mesa da cozinha havia uma caixa de sapatos com uma pequena tartaruga. Roberto
a retirou e colocou sobre a mesa. Ela andou em minha direção porque havia
migalhas de pão. Mamãe trouxe uma folha de alface e eu fiquei alimentando a
bichinha.
Lembrei
do casal de tartarugas que vivia solto no quintal. Roberto explicou que a
tartaruguinha era filha de uma delas. O macho tinha morrido há muito tempo
quando papai a queimou junto com folhas de árvores. Normalmente ele abria um
buraco e as enterrava, mas naquele dia, eram tantas e estavam tão
secas que resolveu queimá-las, esquecendo-se de verificar se ali estavam as
tartarugas.
A fêmea
voltara a procriar recentemente porque Roberto trouxe um macho da casa da Dona
Georgina, cujo viveiro foi desativado. Ela tinha o estranho hábito de seguir as
pessoas, preferencialmente o Roberto. As vezes parecia agressiva porque
esticava o pescoço e abria a boca ao se aproximar. Mas só queria estar próxima.
Perguntei
sobre a convivência das tartarugas com os cachorros. Roberto disse que era
normal. Normal até a hora da comida. Se as tartarugas se limitassem às folhas,
tudo bem, caso contrário, os cachorros regiam. Usavam uma estratégia simples:
viravam as tartarugas com a barriga para cima e comiam sossegados.
Roberto ainda
explicou que a confusão maior era na época das mangas porque, segundo ele,
cachorros e tartarugas adoravam.
Era só o que
faltava: cachorros vegetarianos.
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