segunda-feira, 2 de abril de 2018

Carros do Roberto 06

O Bebeto, quando comprou aquele carro, que tinha como particularidade as pinturas loucas de dragões, demônios e outras figuras, divertia-se muito com as situações que eram provocadas:
1) Sempre que ele chegava a algum lugar com aquele carro, a reação das pessoas era imediata e a expressão era unânime (desculpem mas é preciso registrar na íntegra): CARAAALHO! E esse passou a ser o nome do carro, tanto que ele vivia nos chamando pra dar uma volta no "Caralho".
2) Ele contava que, certa vez, estacionou em frente a um bar para comprar cigarros, o carro todo fechado com o ar ligado e mais uma vez notou as expressões pasmas nos rostos das pessoas que se encontravam frente ao bar. Demorou-se um pouco para sair do carro, percebendo e curtindo a expectativa de todos pois, dizia ele, parecia que esperavam sair daquele carro um personagem daqueles filmes americanos, sujeito enorme, todo tatuado, mal encarado... Eis que a porta se abre e surge o Roberto, com seu rabinho de cavalo, aquele corpão musculoso que Deus lhe deu, realçado por uma camiseta cor de rosa, tamanho P, sorriso de criança no rosto. Decepção geral.
3) Tempos depois, vendeu o "Caralho" e me pediu para ir com ele pra trazê-lo de volta, após entregar o carro. Só não me disse onde seria feito o negócio. Lá fomos nós, eu o seguindo no meu carro, um Monza, e ele ao volante do "caralho". Quando dei por mim, estávamos entrando em Parada de Lucas. Quanto mais nos aprofundávamos na favela mais chamávamos atenção. Em marcha reduzida, o "caralho" passou a ser seguido por vários curiosos e não é preciso dizer, comecei a entrar em pânico. Finalmente chegamos à casa do comprador, um vereador que morava numa bela casa, na meiuca da favela. Estacionamos e abrindo caminho entre a pequena multidão que se aglomerava  em volta do "caralho", entramos na casa do sujeito, que já nos esperava no portão. Ao receber as chaves o cara já a passou a um moleque, que presumimos fosse seu filho, o qual saiu fazendo um tour pela favela.
Sentamo-nos, com a expressão da máxima "tranquilidade" expressa nos nossos rostos enquanto o sujeito pegava uma maleta de onde retirou vários maços de notas de dólar. Contado o dinheiro, tudo certinho conforme combinado, viria a parte mais fácil: sair da favela carregando todo aquele dinheiro.
Nesse momento, entrou em cena uma das características do Roberto, a calma, a tranquilidade para lidar com situações aparentemente difíceis: Leley, fique calmo, ligue o ar, feche os vidros, trave as portas, vá saindo devagar e não pare pra ninguém. E lá fomos nós, rumo à Av. Brasil, deixando o "Caralho" pra trás.
Acho que minhas pernas só pararam de tremer quando chegamos ao Mendanha. Me lembro que virei para o Roberto e gritei: Caraaaalhoooo!

Me lembro da risada dele até hoje.

(Wanderley Malta, amigo)

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