sexta-feira, 20 de julho de 2018

Homenagem aos 40 anos do Roberto

(14 julho 1996, uma homenagem aos 40 anos do Roberto.)

Aos quarenta…

Aos quarenta,
o balanço das perdas,
a percepção do inconcluso
e os desafios do futuro,
já não levam ao desespero.
Descobrimos que maturidade
é a capacidade de tratar as questões com parcimônia,
de confiar no tempo,
de agir com arrojo, mas sem precipitação,
de saber que apenas uma parte dos problemas será resolvida.
A outra parte será adiada,
transformada ou perderá a importância.

Aos quarenta,
mais seguros e experientes,
continuamos a nos surpreender com nossa fragilidade.
De um tempo distante, chegam lembranças da criança
para qual o mundo adulto era perfeito, resolvido e competente.
No máximo um pouco chato.

… quarenta anos depois,
Com espaço mais do que garantido no mundo adulto,
e podendo reivindicar o título de novo dono da verdade,
vejo você, Roberto tal como o esperado,
expondo convicções e agindo coerente com elas,
mas também sendo capaz de transparecer dúvidas e dilemas.
Isso nos próxima e lhe amplia a dimensão humana.
Porém, além da firmeza da conduta e da humidade da dúvida,
O que o torna especial é a capacidade de vivenciar tudo isso
sem nos privar do carinho
e do companheirismo.
Há continuidade…
Aquela criança permanece viva,
na exclamação feliz dos seus sobrinhos:
- O tio Roberto é maluco!
Um dia compreenderão
Que as adoráveis maluquices,
representam o seu jeito de nos proporcionar alegrias.
De ensinar, na prática, o que é ser companheiro e agregador.
Roberto,
Quando estimulo o convívio de meus filhos com você,
o faço na certeza de que é das melhores coisas que posso oferecer-lhes.
Quero vê-los homens competentes em seus ofícios,
mas, sobretudo,
generosos e agregadores como o tio Roberto.
Aos quarenta,
e tendo se tornado o irmão mais,
(não entendo essa pressa),
você, como poucos, nos ajuda a ser gente.
É muito bom compartilhar a vida com você.
Com admiração,
De seu irmão Gilberto.

Completando a História de Itatiaia: travesseiro e susto



Completando a História de Itatiaia: travesseiro e susto.

Foi onde se escondeu Hitler quando fugiu para o Brasil. 
Sinistro, o elevador de carga se mexia sozinho, a escada rangia, tinha passos no corredor...


Felipe, sobrinho.

O quase roubo do travesseiro



Levando a Ro para fazer a prova, ela lembrou que nos encontramos pela primeira vez com você em Itatiaia. Não me lembro se em 1996 ou 1997. 

Roberto e Soninha levaram as crianças para o hotel  onde você costumava ficar, enquanto eu e a Ro permanecemos numa pousada em Penedo.
No dia seguinte nos encontramos e as crianças estavam agitadas falando em fantasmas, elevador sinistro, rangidos e outras coisas. Olhei para Roberto e ele disse que não tinha nada a ver com isso:

- É coisa do Popo.  

Até hoje Felipe se recorda daquelas Histórias.
Acho que não tranquilizei muito as crianças quando revelei que, na verdade, você era um bruxo mesmo,  habitante da Ilha Azul e conhecido como Chuvismildo. 
Caramba! Falo isso e, até hoje, curto sua imagem de roupão preto de cetim, ornamentado com estrelas e luas de papel brilhante e um chapéu em forma de cone. A maquiagem, com lábios roxos e sombra nos olhos, era perfeita.

Roberto também aprontou. Exagerado como ele só, me disse que o travesseiro do hotel era perfeito. 
- Tá bom, Roberto. Você sempre poderá voltar e usar o travesseiro.
Ele riu e me levou até o carro, mostrando o travesseiro.
- Que isso! Roubou o travesseiro?
- Não o moço me deu.
Moço esperto: evitou um roubo.

Gilberto, irmão

Apelidos carinhosos


Apelidos carinhosos

Não sei se todos sabem, mas tenho um apelido exclusivo para o tio Beto. Na verdade, alguns. Menos e mais “escrachados” devido à imensa intimidade. O mais famoso e que, sempre arrancava um sorriso gostoso por trás dos óculos quase meia lua que pousavam nas orelhas à mostra pela ausência de cabelo, era justamente “careca-cabeludo”. Em outros momentos ele atendia por Tony Ramos e se eu o visse perambulando na rua ou na oficina enquanto eu passava de carro, não hesitava em gritar bem alto: - “velho boiola!” Ou “viado careca!”.  
Sem preconceito algum com os homoafetivos, a brincadeira era apenas para provocá-lo mesmo. 

Toda segunda e quarta eu fazia inglês ali no Brasas, pertinho da Sacramento Black. Deixava o carro sempre na rua da vovó Olga e partia para estudar. Mas antes de curso ou passar na vovó Olga, minha parada praticamente obrigatória e semanal era na oficina para ver o careca-cabeludo. 
Sempre receptivo, trocávamos figurinhas sobre a vida e projetos entre um café ou coca-cola sem gás velha que às vezes era substituída por óleo na garrafa pet, tentando me enganar. 
Sempre tinha uma novidade para contar. 
Quando estava atrasada para o curso, passava correndo de carro, mas nunca deixava de buzinar e gritar, o meu apelido carinhoso “velho boiola” ou “viado careca”.  Ele já esperava pela bagunça. 
Toda vez ele subia pra casa e contava pra tia Sônia: “Aquela filha da puta passou aqui de novo e me chamou de Viado-careca” e ria. Era nosso ritual semanal. 

Em uma quarta de prova de inglês, estava com pressa e lá vamos nós para a nossa bagunça: 
Não parei, buzinei umas 4 vezes fazendo zona e gritei “velho viado”. Desci a rua e fui fazer minha prova. 

Na outra semana, já na segunda, assim que eu desci do carro, ele já me recebeu rindo: 
- Ravini, você não vai acreditar. Lembra na quarta passada que você me gritou? Então, subindo a rua, vinha um cara fortão rebolando. Passou na oficina e veio perguntar quem era o viado careca que ele queria conhecer. Quando me viu magrinho, disse que eu não ia dar conta dele não. Mas aí contei a história para ele e ficou tudo certo, volta e meia o vejo por aí, mas não rola, não tenho idade pra isso não. Eu já fumo de perna cruzada, mais um pouco...  Sei não... Prefiro a tia Sônia. - Ele ria e ele mesmo respondia seus próprios pensamentos. 

A gente fez muita festa juntos, esse careca cabeludo é uma figura. Digo é, porque está sempre presente nas lembranças. Te amo, tio!


Ravine, sobrinha

Roberto, um detetive eficiente


Roberto, um detetive eficiente

 Campo Grande era um lugar tranquilo, na década de 1960. Um paraíso, se comparado com os padrões atuais.   Furtos a residências se limitavam aos bojões de gás, roupas nos varais e vasos com  plantas. De roubos - que implicam em violência  - não tínhamos notícias. Os muros eram baixos e inexistiam grades para reforçar a segurança . 
Mesmo assim papai se precavia. Cauteloso, mantinha as portas e janelas bem fechadas. Toda noite, na hora de se deitar, cumpria um ritual minucioso de vistoria, e colocava tampas de panelas nas maçanetas e trincos. Isso mesmo! Ele aplicava  um sistema de alarme primitivo. Caso forçassem para entrar, a tampa cairia, alertando a todos e espantando o assaltante.  

Ninguém, senão ele, levava aquilo à sério. Acho que se sentia ativo e protetor. Mas, certo dia, o esquema foi acionado. E funcionou. 

Nas últimas horas da madrugada, quando uma tênue claridade já anunciava o amanhecer, uma tampa caiu, ecoando alto.
Papai pulou da cama e denunciou o assalto aos gritos:
- Pega ladrão! Sai seu filho “disso e daquilo”. Atira. Onde esta a arma, Arminda?
Passos apressados ecoaram no quintal, aumentando a tensão.  

Fui para o quarto do Roberto e aguardamos apreensivos.

Papai  transitava pelos corredores, ditando ordens, confusas: “não se mexam”;  “corram", se abaixem";  “cadê a arma"; “acende a luz"; “apaga a luz”.

Mamãe escondera a arma, um velho 32 sempre descarregado, e, mesmo na emergência, não tinha a menor intensão de revelar a localização.  Com dois meninos curiosos e um marido que não entendia nada de tiros, era melhor limitar a segurança  às tampas de panelas e aos gritos.

Duquesa, nossa simpática viralata, deu uma modesta e tardia colaboração: alguns latidos. Ela era uma  excelente anfitriã. Recebia a todos com carinho, mas não curtia o estresse de latir para assustar. Cumpriu burocraticamente a função de cão de guarda e voltou a dormir.

Depois do tumulto generalizado, e já com a manhã clara,  saímos cautelosamente para o quintal. Encontramos o cenário do “crime” ainda armado: pães e sacos de leite espalhados e o portão escancarado.

Ainda excitados pelo acontecimento, voltamos a rotina, porque papai precisava sair para o trabalho. Roberto foi a padaria do Seu Vidal buscar novos pães e o leite, e voltou morrendo de rir. Me chamou e disse:
- Descobri o ladrão.

Em tempos de investigações demoradas, ele acabara de bater um recorde.   
- Como assim?
- Cheguei na padaria e Seu Vidal me disse que o entregador de pães  voltou apavorado.

O garoto contou ao Roberto que fez como todos os dias. Abriu o portão, brincou com a duquesa, e se preparava para deixar tudo na porta da sala, quando ouviu barulho, gritos e ameaças de tiros. Não esperou para ver. Correu como um desesperado.

- Poxa! Robertinho. Levei o maior susto. Fala com seu pai para tomar cuidado. Eu só queria entregar o pão.

A verdade é que Roberto só desvendou parcialmente o mistério. Até hoje não sabemos porque a tampa caiu exatamente no momento em que o padeiro fazia  a entrega. Obra do acaso?  O padeiro encostou na porta? Um gesto estabanado da duquesa. Sei lá!

 Papai manteve o  entregador sob suspeita e reafirmou a eficiência do seu esquema.

O entregador  foi beneficiado. Vítima da tampa caída e não da bala perdida, voltou a estudar. Ainda bem!
- Não quero essa vida não. Confidenciou ao Roberto.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Roberto e as escolas.


Roberto e as escolas.

            Passeando com mamãe, perguntei:
- Por que o Roberto passou por tantas escolas? Ela respondeu:
 - Ele aprontava. Fazia bagunça e ia mal nas provas. A direção me chamava uma, duas vezes. Aí eu trocava de escola.
Respondeu reflexiva, mas sem ressentimento. Apenas descreveu o percurso escolar do Roberto, pedindo ajuda para lembrar nomes e datas. Certamente se aborreceu na época, pois acreditava que a escolaridade era pré-condição para o sucesso.  Pensava no melhor para ele.
Não lembro de punições ou broncas constrangedoras. Ela, que não hesitava em usar o “chinelo”, preferiu o diálogo e a adaptação. Compreendeu intuitivamente a incoerência entre o fracasso escolar e a liderança, criatividade, inteligência prática e sociabilidade do Roberto. Percebeu que o sucesso/felicidade dele passava por outros caminhos. Caso ela e papai tivessem agido com rigidez, teriam sufocado um enorme e raro talento de bem viver. Souberam compreender, aceitar e estimular alternativas para ele. A situação era ainda mais complicada porque havia a comparação comigo, cujos resultados escolares eram bons.  Souberam administrar as diferenças.
Ainda bem! Agradeço a eles.
            Roberto começou a trajetória escolar no Sara Kubstischeck, onde fez a pré-escola. No Colégio Belisário dos Santos iniciou uma longa peregrinação, passando pelos colégios Cesário de Mello, Afonso Celso, Rita de Cassia e  Antônio de Pádua,  tendo concluído o Ensino Médio numa escola técnica, em Santíssimo. Iniciou o curso superior de Administração na Sreder Bastos, em Campo Grande, mas não concluiu.
            Roberto aparece, em minhas memórias dos tempos escolares, alegre e cercado por amigos. Era popular e dinâmico. Estava à frente de todos os eventos tradicionais, como campanhas filantrópicas, festejos juninos, paradas de 7 de setembro e, naturalmente, dos muitos que promovia, como as rodas de violão, passeios e competições de ping-pong.
            Hoje tenho clareza do absurdo daquele modelo de escola. Roberto foi um rebelde primitivo. Rejeitou intuitivamente o que precisava ser rejeitado. O fez para manter a sanidade mental, a essência criativa e a alegria. Se referia as escolas, sem mágoas, ressaltando o lado bom: o espaço societário que sabia ocupar como poucos.
Quando paro para pensar, percebo que era mesmo impossível enquadra-lo na formatação rígida daquelas escolas, cujo extremo era representado Colégio Belisário dos Santos. Ali, diariamente, os alunos seguiam um ritual militar. Fardados, e sob estreita vigilância, se perfilavam no pátio para cantar o  Hino Nacional e ouvir preleções moralistas e patrióticas. O êxtase do diretor, Helton Veloso, se deu com o golpe militar de 1964. Chegou a suspender as aulas para comemorá-lo. Após as preleções, marchávamos em filas, organizadas do menor para o maior, até a sala de aula, onde aguardávamos em pé o professor. Participação, diálogo e construção do conhecimento eram termos desconhecidos. Qualquer dificuldade de adaptação era vista como um atentado à segurança nacional e as traquinagens do Roberto, como atentados terroristas.

 Gilberto, irmão











Troca troca constante


Troca troca constante.


Roberto comerciava como um bom campograndense.  Nem sempre o dinheiro circulava nas transações. Com frequência usava mercadorias - num autêntico escambo – e prestação de serviços. Nada demais, por exemplo, receber frutas, legumes, animais ou um bem qualquer, pelo ajuste de um motor. O que não podia faltar era a confiança na palavra e laços afetivos. Confiança e afetividade  eram as principais moedas.
Isso ele herdou de papai. Para se ter ideia do que estou falando, basta acompanhar os passos de papai para a aquisição de uma casa de praia em Mangaratiba. Vovó vendeu uma casa na Vila Kennedy e adquiriu um terreno na Rua Sacramento Blaque, próximo a nossa casa. O local era bom, mas a casa e a documentação, precárias. Na ocasião, o filho mais velho da vovó (tio Antônio), recentemente aposentado, foi morar em Cosmos. Por coincidência, ao lado da sua nova moradia, foi posta à venda uma boa casa com preço baixo. Era a oportunidade da vovó ter uma residência digna e aproxima ao filho. Papai resolveu o problema comprando a casa para a vovó em troca do terreno em Campo Grande que, imediatamente, foi trocado, em sociedade, pela casa de Mangaratiba.
Era assim que funcionava. Várias vezes Roberto vendeu a moto para um amigo que repassou para outro, e, depois de várias intermediações, ela voltou para o Roberto.
Havia também as trocas casuais e espontâneas. No meio de uma conversa sobre pesca, um arpão podia ser trocado por um par de pés de pato. Ele fazia isso com a simplicidade de quem toma uma Coca Cola. Eu disse Coca e não cerveja, como reza a tradição. Bebesse cerveja quem quisesse,  porque ele brindaria a troca com um gole de Coca Cola. Nessas ocasiões virava criança em dia de Natal. Exibia orgulhoso o novo bem. Anunciava feliz, seja lá o que fosse, um periquito ou uma moto. Desejava a aprovação da família e dos  amigos

Gilberto, irmão

Copa do Mundo


Robertoe a Copa do Mundo

                Da Copa do Mundo de 1970 guardo lembranças marcantes . Vivi plenamente os preparativos e a campanha arrasadora de Pelé e Cia. As copas  anteriores aparecem para mim como relatos de acontecimentos vividos por outros. Em meio a jogadas antológicas, pintura de ruas e muros e festejos, lembro de um episódio tenso envolvendo o Roberto que, na ocasião, tinha 14 anos.
Foi na comemoração da vitória contra a Itália e conquista definitiva do tricampeonato. Saíamos de casa com a recomendação de mamãe  para ficarmos juntos. Descemos a Sacramento Blake  e seguimos pela estrada do Cabuçu, em direção a esquina do Pecado. Centenas de pessoas se deslocavam das ruas transversais e formavam espontaneamente blocos. Na Esquina do Pecado a multidão se compactou. Optamos por seguir pela  Cesário de Melo até a Coronel Agostinho, por onde desceríamos, seguindo o fluxo do trânsito, pois ainda não havia o calçadão, construído apenas em 1976. Na confusão de automóveis, bondes, lotações e blocos, o Roberto sumiu. Fiquei preocupado. Depois de muito procurar, subi num caminhão para olhar a multidão de cima na esperança de localiza-lo. No alto do caminhão o encontrei feliz, em meio a um grupo. Fui reclamar e ele me recebeu com um caloroso abraço e cantando o refrão: - “É tricampeão/acabamos de engolir o macarrão”.  Entrei na brincadeira e, próximo a “estação”, combinamos um local de encontro. Era impossível permanecermos juntos.
O problema é que fiquei com o dinheiro. Muito tempo depois, fui tomar um sorvete na Sorveteria Campo Grande. Estava na fila, já pedindo, quando ouvi:
- O meu é de morango.
E, virando-se para o vendedor, disse:
- O dele é de jabuticaba.
                - Como me achou?
Ele me olhou surpreso:
                - Claro que você estaria aqui!
Não sabia que eu era tão previsível!
Nossa família não tinha tradição de torcer por time de futebol. Soube, já adolescente, que papai teve simpatia pela Vasco e que, naquele momento, preferia discretamente o Flamengo. Optei pelo Botafogo e criei uma mini tradição familiar. Não avancei mais porque  é difícil competir com o Flamengo. O Roberto me acompanhou. Se declarava botafoguense, mas seguia a linha pouco entusiasmada de papai.
Nas copas seguintes ele me irritou.
Como bom e supersticioso botafoguense,  segui os rituais imprescindíveis para alcançar o êxito de 1970. Repetir os lugares ocupados na poltrona e as roupas do último jogo, era o mínimo a fazer para ajudarmos os santos e astros. Mas o Roberto não ajudava. Era fiel a alegria. Assistia os jogos onde os amigos se concentravam e, como  tinha a presença reivindicada em diversos lugares, não sabíamos ao certo onde estaria. Sua roupa do último jogo tinha tantos adereços que, por mais que nos esforçássemos, ninguém se lembrava qual foi. Era irritante vê-lo feliz até nas derrotas, ou perguntando quanto foi o jogo.
Certa vez, no auge da irracionalidade apaixonada de torcedor, o culpei pela derrota do Brasil.
 Ele riu. Achou ótima a insensatez do sensato irmão que tinha proposto uma a espécie de empoderamenro às avessas.
- Vamos comemorar, Gil.

Gilberto, irmão

Roberto na área médica


            Aplicar injeções e furar lóbulos de orelhas para colocar brincos, são atividades da área médica e que exigem habilidades específicas. Certo?
Em condições normais, sim. Mas, quando o Roberto entra na jogada, tudo fica diferente. Afinal - pensando bem - não são tarefas tão complexas assim que um bom mecânico de motos não possa realiza-las.
            Naquela tarde o Roberto estava agitado procurando uma rolha e remexendo o velho estojo de metal onde mamãe guardava seringas e agulhas.
            - Vou furar a orelha de “fulano”.
            - O que !?
Não lembro a quem se referia. Perguntei recentemente à mamãe. Ela acha que era um colega dele, talvez o Dayan.
O procedimento era simples, bastava apoiar o lóbulo na rolha, perfurar com agulha higienizada e deixar a perfuração preenchida por um fio de linha por alguns dias.
- Deu certo, Roberto?
- Lógico! Quer dizer… Mais ou menos.
- Como assim?
- O furo ficou torto. Enfiei a agulha de cima para baixo, na diagonal, e não retinho.
- Que droga! E agora?
- Tranquilo. Está tudo bem. E só enfiar o brinco também na diagonal.
Entendi. Ainda bem que deu tudo certo.
O episódio da injeção foi anterior.
Mamãe - que na juventude foi auxiliar de enfermagem - aplicava injeções nos vizinhos, amigos e parentes. O estojo metálico com seringas e agulhas estava sempre à mão, porque  os pedidos eram constantes. Certa tarde o Roberto pegou o conhecido estojo, montou a seringa com uma agulha usada só para extrair líquido das ampolas,  espetou legumes  e uma boneca da mamãe. Diante da minha surpresa, retirou a agulha e simulou dar injeção no meu braço.
- Que isso, Roberto?
- Dona “fulana” (não lembro o nome) vem tomar injeção daqui a pouco.
- Mas mamãe saiu e só voltará bem mais tarde.
- Falei isso, mas ela perguntou se eu não poderia aplicar. Disse que é uma injeção simples e que tem hora certa.
- O que você respondeu?
- Ué! Que posso. Ela está precisando, não está? Já vi mamãe fazendo isso um monte de vezes, e dou injeções no King (nosso cachorro). É só treinar um pouquinho.
            E aí? Deu certo?
Não apenas deu certo, como a senhora só queria tomar injeção como ele. Ela dizia:
- Robertinho tem a mão levinha. Agente nem sente.
Tínhamos trauma de injeções. Vovó era assistente de enfermagem e trabalhou em muitos postos de saúde. Experiência não faltava, mas temíamos o modo dela aplicar mais do que a injeção propriamente dita. Aquela sim tinha a mão pesada. Imagino que, se fosse hoje, diria:
- Vem cá, moleque. Deixa de frescura.
Na época tinha aquele papo de que “você já é um homenzinho” e que “homem não chora”. Por via das dúvidas, para não termos a masculinidade questionada - coisa séria no subúrbio - eu e Roberto optávamos por tomarmos injeções com mamãe. Qualquer vacilação nossa vinha logo a ameaça:
- Vou chamar sua vó.
Roberto continuou aplicando injeções em animais.
Não me lembro quando encerrou sua carreira com os humanos. Uma bela carreira. Saiu no apogeu.

Gilberto, irmão