quinta-feira, 5 de julho de 2018

Copa do Mundo


Robertoe a Copa do Mundo

                Da Copa do Mundo de 1970 guardo lembranças marcantes . Vivi plenamente os preparativos e a campanha arrasadora de Pelé e Cia. As copas  anteriores aparecem para mim como relatos de acontecimentos vividos por outros. Em meio a jogadas antológicas, pintura de ruas e muros e festejos, lembro de um episódio tenso envolvendo o Roberto que, na ocasião, tinha 14 anos.
Foi na comemoração da vitória contra a Itália e conquista definitiva do tricampeonato. Saíamos de casa com a recomendação de mamãe  para ficarmos juntos. Descemos a Sacramento Blake  e seguimos pela estrada do Cabuçu, em direção a esquina do Pecado. Centenas de pessoas se deslocavam das ruas transversais e formavam espontaneamente blocos. Na Esquina do Pecado a multidão se compactou. Optamos por seguir pela  Cesário de Melo até a Coronel Agostinho, por onde desceríamos, seguindo o fluxo do trânsito, pois ainda não havia o calçadão, construído apenas em 1976. Na confusão de automóveis, bondes, lotações e blocos, o Roberto sumiu. Fiquei preocupado. Depois de muito procurar, subi num caminhão para olhar a multidão de cima na esperança de localiza-lo. No alto do caminhão o encontrei feliz, em meio a um grupo. Fui reclamar e ele me recebeu com um caloroso abraço e cantando o refrão: - “É tricampeão/acabamos de engolir o macarrão”.  Entrei na brincadeira e, próximo a “estação”, combinamos um local de encontro. Era impossível permanecermos juntos.
O problema é que fiquei com o dinheiro. Muito tempo depois, fui tomar um sorvete na Sorveteria Campo Grande. Estava na fila, já pedindo, quando ouvi:
- O meu é de morango.
E, virando-se para o vendedor, disse:
- O dele é de jabuticaba.
                - Como me achou?
Ele me olhou surpreso:
                - Claro que você estaria aqui!
Não sabia que eu era tão previsível!
Nossa família não tinha tradição de torcer por time de futebol. Soube, já adolescente, que papai teve simpatia pela Vasco e que, naquele momento, preferia discretamente o Flamengo. Optei pelo Botafogo e criei uma mini tradição familiar. Não avancei mais porque  é difícil competir com o Flamengo. O Roberto me acompanhou. Se declarava botafoguense, mas seguia a linha pouco entusiasmada de papai.
Nas copas seguintes ele me irritou.
Como bom e supersticioso botafoguense,  segui os rituais imprescindíveis para alcançar o êxito de 1970. Repetir os lugares ocupados na poltrona e as roupas do último jogo, era o mínimo a fazer para ajudarmos os santos e astros. Mas o Roberto não ajudava. Era fiel a alegria. Assistia os jogos onde os amigos se concentravam e, como  tinha a presença reivindicada em diversos lugares, não sabíamos ao certo onde estaria. Sua roupa do último jogo tinha tantos adereços que, por mais que nos esforçássemos, ninguém se lembrava qual foi. Era irritante vê-lo feliz até nas derrotas, ou perguntando quanto foi o jogo.
Certa vez, no auge da irracionalidade apaixonada de torcedor, o culpei pela derrota do Brasil.
 Ele riu. Achou ótima a insensatez do sensato irmão que tinha proposto uma a espécie de empoderamenro às avessas.
- Vamos comemorar, Gil.

Gilberto, irmão

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