Robertoe a Copa do Mundo
Da Copa
do Mundo de 1970 guardo lembranças marcantes . Vivi plenamente os preparativos
e a campanha arrasadora de Pelé e Cia. As copas anteriores aparecem para mim como relatos de
acontecimentos vividos por outros. Em meio a jogadas antológicas, pintura de
ruas e muros e festejos, lembro de um episódio tenso envolvendo o Roberto que,
na ocasião, tinha 14 anos.
Foi na comemoração da vitória contra
a Itália e conquista definitiva do tricampeonato. Saíamos de casa com a recomendação
de mamãe para ficarmos juntos. Descemos
a Sacramento Blake e seguimos pela
estrada do Cabuçu, em direção a esquina do Pecado. Centenas de pessoas se
deslocavam das ruas transversais e formavam espontaneamente blocos. Na Esquina
do Pecado a multidão se compactou. Optamos por seguir pela Cesário de Melo até a Coronel Agostinho, por
onde desceríamos, seguindo o fluxo do trânsito, pois ainda não havia o calçadão,
construído apenas em 1976. Na confusão de automóveis, bondes, lotações e
blocos, o Roberto sumiu. Fiquei preocupado. Depois de muito procurar, subi num caminhão
para olhar a multidão de cima na esperança de localiza-lo. No alto do caminhão
o encontrei feliz, em meio a um grupo. Fui reclamar e ele me recebeu com um
caloroso abraço e cantando o refrão: - “É tricampeão/acabamos de engolir o
macarrão”. Entrei na brincadeira e,
próximo a “estação”, combinamos um local de encontro. Era impossível permanecermos
juntos.
O problema é que fiquei com o
dinheiro. Muito tempo depois, fui tomar um sorvete na Sorveteria Campo Grande. Estava
na fila, já pedindo, quando ouvi:
- O meu é de morango.
E, virando-se para o vendedor,
disse:
- O dele é de jabuticaba.
- Como
me achou?
Ele me olhou surpreso:
- Claro
que você estaria aqui!
Não sabia que eu era tão
previsível!
Nossa família não tinha tradição
de torcer por time de futebol. Soube, já adolescente, que papai teve simpatia
pela Vasco e que, naquele momento, preferia discretamente o Flamengo. Optei
pelo Botafogo e criei uma mini tradição familiar. Não avancei mais porque é difícil competir com o Flamengo. O Roberto me
acompanhou. Se declarava botafoguense, mas seguia a linha pouco entusiasmada de
papai.
Nas copas seguintes ele me
irritou.
Como bom e supersticioso botafoguense,
segui os rituais imprescindíveis para alcançar
o êxito de 1970. Repetir os lugares ocupados na poltrona e as roupas do último jogo,
era o mínimo a fazer para ajudarmos os santos e astros. Mas o Roberto não
ajudava. Era fiel a alegria. Assistia os jogos onde os amigos se concentravam
e, como tinha a presença reivindicada em
diversos lugares, não sabíamos ao certo onde estaria. Sua roupa do último jogo
tinha tantos adereços que, por mais que nos esforçássemos, ninguém se lembrava
qual foi. Era irritante vê-lo feliz até nas derrotas, ou perguntando quanto foi
o jogo.
Certa vez, no auge da irracionalidade
apaixonada de torcedor, o culpei pela derrota do Brasil.
Ele riu. Achou ótima a insensatez do sensato
irmão que tinha proposto uma a espécie de empoderamenro às avessas.
- Vamos comemorar, Gil.
Gilberto, irmão
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