Apelidos carinhosos
Não sei se todos sabem, mas tenho um apelido exclusivo para o tio Beto.
Na verdade, alguns. Menos e mais “escrachados” devido à imensa intimidade. O
mais famoso e que, sempre arrancava um sorriso gostoso por trás dos óculos
quase meia lua que pousavam nas orelhas à mostra pela ausência de cabelo, era
justamente “careca-cabeludo”. Em outros momentos ele atendia por Tony Ramos e
se eu o visse perambulando na rua ou na oficina enquanto eu passava de carro,
não hesitava em gritar bem alto: - “velho boiola!” Ou “viado
careca!”.
Sem preconceito algum com os homoafetivos, a brincadeira era apenas para
provocá-lo mesmo.
Toda segunda e quarta eu fazia inglês ali no Brasas, pertinho da
Sacramento Black. Deixava o carro sempre na rua da vovó Olga e partia para
estudar. Mas antes de curso ou passar na vovó Olga, minha parada praticamente
obrigatória e semanal era na oficina para ver o careca-cabeludo.
Sempre receptivo, trocávamos figurinhas sobre a vida e projetos entre um
café ou coca-cola sem gás velha que às vezes era substituída por óleo na
garrafa pet, tentando me enganar.
Sempre tinha uma novidade para contar.
Quando estava atrasada para o curso, passava correndo de carro, mas
nunca deixava de buzinar e gritar, o meu apelido carinhoso “velho boiola” ou
“viado careca”. Ele já esperava pela bagunça.
Toda vez ele subia pra casa e contava pra tia Sônia: “Aquela filha da
puta passou aqui de novo e me chamou de Viado-careca” e ria. Era nosso ritual
semanal.
Em uma quarta de prova de inglês, estava com pressa e lá vamos nós para
a nossa bagunça:
Não parei, buzinei umas 4 vezes fazendo zona e gritei “velho viado”.
Desci a rua e fui fazer minha prova.
Na outra semana, já na segunda, assim que eu desci do carro, ele já me
recebeu rindo:
- Ravini, você não vai acreditar. Lembra na quarta passada que você me
gritou? Então, subindo a rua, vinha um cara fortão rebolando. Passou na oficina
e veio perguntar quem era o viado careca que ele queria conhecer. Quando me viu
magrinho, disse que eu não ia dar conta dele não. Mas aí contei a história para
ele e ficou tudo certo, volta e meia o vejo por aí, mas não rola, não tenho
idade pra isso não. Eu já fumo de perna cruzada, mais um pouco... Sei
não... Prefiro a tia Sônia. - Ele ria e ele mesmo respondia seus próprios
pensamentos.
A gente fez muita festa juntos, esse careca cabeludo é uma figura. Digo
é, porque está sempre presente nas lembranças. Te amo, tio!
Ravine, sobrinha
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