Roberto e as escolas.
Passeando
com mamãe, perguntei:
- Por que o
Roberto passou por tantas escolas? Ela respondeu:
- Ele aprontava. Fazia bagunça e ia mal nas
provas. A direção me chamava uma, duas vezes. Aí eu trocava de escola.
Respondeu
reflexiva, mas sem ressentimento. Apenas descreveu o percurso escolar do
Roberto, pedindo ajuda para lembrar nomes e datas. Certamente se aborreceu na
época, pois acreditava que a escolaridade era pré-condição para o sucesso. Pensava no melhor para ele.
Não lembro de punições
ou broncas constrangedoras. Ela, que não hesitava em usar o “chinelo”, preferiu
o diálogo e a adaptação. Compreendeu intuitivamente a incoerência entre o
fracasso escolar e a liderança, criatividade, inteligência prática e
sociabilidade do Roberto. Percebeu que o sucesso/felicidade dele passava por
outros caminhos. Caso ela e papai tivessem agido com rigidez, teriam sufocado um
enorme e raro talento de bem viver. Souberam compreender, aceitar e estimular
alternativas para ele. A situação era ainda mais complicada porque havia a comparação
comigo, cujos resultados escolares eram bons. Souberam administrar as diferenças.
Ainda bem!
Agradeço a eles.
Roberto
começou a trajetória escolar no Sara Kubstischeck, onde fez a pré-escola. No Colégio
Belisário dos Santos iniciou uma longa peregrinação, passando pelos colégios
Cesário de Mello, Afonso Celso, Rita de Cassia e Antônio de Pádua, tendo concluído o Ensino Médio numa escola
técnica, em Santíssimo. Iniciou o curso superior de Administração na Sreder Bastos,
em Campo Grande, mas não concluiu.
Roberto
aparece, em minhas memórias dos tempos escolares, alegre e cercado por amigos.
Era popular e dinâmico. Estava à frente de todos os eventos tradicionais, como campanhas
filantrópicas, festejos juninos, paradas de 7 de setembro e, naturalmente, dos
muitos que promovia, como as rodas de violão, passeios e competições de ping-pong.
Hoje
tenho clareza do absurdo daquele modelo de escola. Roberto foi um rebelde
primitivo. Rejeitou intuitivamente o que precisava ser rejeitado. O fez para manter
a sanidade mental, a essência criativa e a alegria. Se referia as escolas, sem
mágoas, ressaltando o lado bom: o espaço societário que sabia ocupar como
poucos.
Quando paro
para pensar, percebo que era mesmo impossível enquadra-lo na formatação rígida daquelas
escolas, cujo extremo era representado Colégio Belisário dos Santos. Ali,
diariamente, os alunos seguiam um ritual militar. Fardados, e sob estreita vigilância,
se perfilavam no pátio para cantar o Hino
Nacional e ouvir preleções moralistas e patrióticas. O êxtase do diretor,
Helton Veloso, se deu com o golpe militar de 1964. Chegou a suspender as aulas
para comemorá-lo. Após as preleções, marchávamos em filas, organizadas do menor
para o maior, até a sala de aula, onde aguardávamos em pé o professor. Participação,
diálogo e construção do conhecimento eram termos desconhecidos. Qualquer dificuldade
de adaptação era vista como um atentado à segurança nacional e as traquinagens do
Roberto, como atentados terroristas.
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