quinta-feira, 5 de julho de 2018

Roberto e as escolas.


Roberto e as escolas.

            Passeando com mamãe, perguntei:
- Por que o Roberto passou por tantas escolas? Ela respondeu:
 - Ele aprontava. Fazia bagunça e ia mal nas provas. A direção me chamava uma, duas vezes. Aí eu trocava de escola.
Respondeu reflexiva, mas sem ressentimento. Apenas descreveu o percurso escolar do Roberto, pedindo ajuda para lembrar nomes e datas. Certamente se aborreceu na época, pois acreditava que a escolaridade era pré-condição para o sucesso.  Pensava no melhor para ele.
Não lembro de punições ou broncas constrangedoras. Ela, que não hesitava em usar o “chinelo”, preferiu o diálogo e a adaptação. Compreendeu intuitivamente a incoerência entre o fracasso escolar e a liderança, criatividade, inteligência prática e sociabilidade do Roberto. Percebeu que o sucesso/felicidade dele passava por outros caminhos. Caso ela e papai tivessem agido com rigidez, teriam sufocado um enorme e raro talento de bem viver. Souberam compreender, aceitar e estimular alternativas para ele. A situação era ainda mais complicada porque havia a comparação comigo, cujos resultados escolares eram bons.  Souberam administrar as diferenças.
Ainda bem! Agradeço a eles.
            Roberto começou a trajetória escolar no Sara Kubstischeck, onde fez a pré-escola. No Colégio Belisário dos Santos iniciou uma longa peregrinação, passando pelos colégios Cesário de Mello, Afonso Celso, Rita de Cassia e  Antônio de Pádua,  tendo concluído o Ensino Médio numa escola técnica, em Santíssimo. Iniciou o curso superior de Administração na Sreder Bastos, em Campo Grande, mas não concluiu.
            Roberto aparece, em minhas memórias dos tempos escolares, alegre e cercado por amigos. Era popular e dinâmico. Estava à frente de todos os eventos tradicionais, como campanhas filantrópicas, festejos juninos, paradas de 7 de setembro e, naturalmente, dos muitos que promovia, como as rodas de violão, passeios e competições de ping-pong.
            Hoje tenho clareza do absurdo daquele modelo de escola. Roberto foi um rebelde primitivo. Rejeitou intuitivamente o que precisava ser rejeitado. O fez para manter a sanidade mental, a essência criativa e a alegria. Se referia as escolas, sem mágoas, ressaltando o lado bom: o espaço societário que sabia ocupar como poucos.
Quando paro para pensar, percebo que era mesmo impossível enquadra-lo na formatação rígida daquelas escolas, cujo extremo era representado Colégio Belisário dos Santos. Ali, diariamente, os alunos seguiam um ritual militar. Fardados, e sob estreita vigilância, se perfilavam no pátio para cantar o  Hino Nacional e ouvir preleções moralistas e patrióticas. O êxtase do diretor, Helton Veloso, se deu com o golpe militar de 1964. Chegou a suspender as aulas para comemorá-lo. Após as preleções, marchávamos em filas, organizadas do menor para o maior, até a sala de aula, onde aguardávamos em pé o professor. Participação, diálogo e construção do conhecimento eram termos desconhecidos. Qualquer dificuldade de adaptação era vista como um atentado à segurança nacional e as traquinagens do Roberto, como atentados terroristas.

 Gilberto, irmão











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