sexta-feira, 20 de julho de 2018

Roberto, um detetive eficiente


Roberto, um detetive eficiente

 Campo Grande era um lugar tranquilo, na década de 1960. Um paraíso, se comparado com os padrões atuais.   Furtos a residências se limitavam aos bojões de gás, roupas nos varais e vasos com  plantas. De roubos - que implicam em violência  - não tínhamos notícias. Os muros eram baixos e inexistiam grades para reforçar a segurança . 
Mesmo assim papai se precavia. Cauteloso, mantinha as portas e janelas bem fechadas. Toda noite, na hora de se deitar, cumpria um ritual minucioso de vistoria, e colocava tampas de panelas nas maçanetas e trincos. Isso mesmo! Ele aplicava  um sistema de alarme primitivo. Caso forçassem para entrar, a tampa cairia, alertando a todos e espantando o assaltante.  

Ninguém, senão ele, levava aquilo à sério. Acho que se sentia ativo e protetor. Mas, certo dia, o esquema foi acionado. E funcionou. 

Nas últimas horas da madrugada, quando uma tênue claridade já anunciava o amanhecer, uma tampa caiu, ecoando alto.
Papai pulou da cama e denunciou o assalto aos gritos:
- Pega ladrão! Sai seu filho “disso e daquilo”. Atira. Onde esta a arma, Arminda?
Passos apressados ecoaram no quintal, aumentando a tensão.  

Fui para o quarto do Roberto e aguardamos apreensivos.

Papai  transitava pelos corredores, ditando ordens, confusas: “não se mexam”;  “corram", se abaixem";  “cadê a arma"; “acende a luz"; “apaga a luz”.

Mamãe escondera a arma, um velho 32 sempre descarregado, e, mesmo na emergência, não tinha a menor intensão de revelar a localização.  Com dois meninos curiosos e um marido que não entendia nada de tiros, era melhor limitar a segurança  às tampas de panelas e aos gritos.

Duquesa, nossa simpática viralata, deu uma modesta e tardia colaboração: alguns latidos. Ela era uma  excelente anfitriã. Recebia a todos com carinho, mas não curtia o estresse de latir para assustar. Cumpriu burocraticamente a função de cão de guarda e voltou a dormir.

Depois do tumulto generalizado, e já com a manhã clara,  saímos cautelosamente para o quintal. Encontramos o cenário do “crime” ainda armado: pães e sacos de leite espalhados e o portão escancarado.

Ainda excitados pelo acontecimento, voltamos a rotina, porque papai precisava sair para o trabalho. Roberto foi a padaria do Seu Vidal buscar novos pães e o leite, e voltou morrendo de rir. Me chamou e disse:
- Descobri o ladrão.

Em tempos de investigações demoradas, ele acabara de bater um recorde.   
- Como assim?
- Cheguei na padaria e Seu Vidal me disse que o entregador de pães  voltou apavorado.

O garoto contou ao Roberto que fez como todos os dias. Abriu o portão, brincou com a duquesa, e se preparava para deixar tudo na porta da sala, quando ouviu barulho, gritos e ameaças de tiros. Não esperou para ver. Correu como um desesperado.

- Poxa! Robertinho. Levei o maior susto. Fala com seu pai para tomar cuidado. Eu só queria entregar o pão.

A verdade é que Roberto só desvendou parcialmente o mistério. Até hoje não sabemos porque a tampa caiu exatamente no momento em que o padeiro fazia  a entrega. Obra do acaso?  O padeiro encostou na porta? Um gesto estabanado da duquesa. Sei lá!

 Papai manteve o  entregador sob suspeita e reafirmou a eficiência do seu esquema.

O entregador  foi beneficiado. Vítima da tampa caída e não da bala perdida, voltou a estudar. Ainda bem!
- Não quero essa vida não. Confidenciou ao Roberto.

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