Roberto, um detetive eficiente
Campo Grande era um lugar tranquilo, na década de 1960. Um
paraíso, se comparado com os padrões atuais. Furtos a residências
se limitavam aos bojões de gás, roupas nos varais e vasos com plantas. De
roubos - que implicam em violência - não tínhamos notícias. Os muros eram
baixos e inexistiam grades para reforçar a segurança .
Mesmo assim papai se precavia. Cauteloso, mantinha as portas e janelas
bem fechadas. Toda noite, na hora de se deitar, cumpria um ritual minucioso de
vistoria, e colocava tampas de panelas nas maçanetas e trincos. Isso mesmo! Ele
aplicava um sistema de alarme primitivo. Caso forçassem para entrar, a
tampa cairia, alertando a todos e espantando o assaltante.
Ninguém, senão ele, levava aquilo à sério. Acho que se sentia ativo e
protetor. Mas, certo dia, o esquema foi acionado. E funcionou.
Nas últimas horas da madrugada, quando uma tênue claridade já anunciava
o amanhecer, uma tampa caiu, ecoando alto.
Papai pulou da cama e denunciou o assalto aos gritos:
- Pega ladrão! Sai seu filho “disso e daquilo”. Atira. Onde esta a arma,
Arminda?
Passos apressados ecoaram no quintal, aumentando a tensão.
Fui para o quarto do Roberto e aguardamos apreensivos.
Papai transitava pelos corredores, ditando ordens, confusas: “não
se mexam”; “corram", se abaixem"; “cadê a arma";
“acende a luz"; “apaga a luz”.
Mamãe escondera a arma, um velho 32 sempre descarregado, e, mesmo na
emergência, não tinha a menor intensão de revelar a localização. Com dois
meninos curiosos e um marido que não entendia nada de tiros, era melhor limitar
a segurança às tampas de panelas e aos gritos.
Duquesa, nossa simpática viralata, deu uma modesta e tardia colaboração:
alguns latidos. Ela era uma excelente anfitriã. Recebia a todos com
carinho, mas não curtia o estresse de latir para assustar. Cumpriu
burocraticamente a função de cão de guarda e voltou a dormir.
Depois do tumulto generalizado, e já com a manhã clara, saímos
cautelosamente para o quintal. Encontramos o cenário do “crime” ainda armado:
pães e sacos de leite espalhados e o portão escancarado.
Ainda excitados pelo acontecimento, voltamos a rotina, porque papai
precisava sair para o trabalho. Roberto foi a padaria do Seu Vidal buscar novos
pães e o leite, e voltou morrendo de rir. Me chamou e disse:
- Descobri o ladrão.
Em tempos de investigações demoradas, ele acabara de bater um
recorde.
- Como assim?
- Cheguei na padaria e Seu Vidal me disse que o entregador de pães
voltou apavorado.
O garoto contou ao Roberto que fez como todos os dias. Abriu o portão,
brincou com a duquesa, e se preparava para deixar tudo na porta da sala, quando
ouviu barulho, gritos e ameaças de tiros. Não esperou para ver. Correu como um
desesperado.
- Poxa! Robertinho. Levei o maior susto. Fala com seu pai para tomar
cuidado. Eu só queria entregar o pão.
A verdade é que Roberto só desvendou parcialmente o mistério. Até hoje
não sabemos porque a tampa caiu exatamente no momento em que o padeiro
fazia a entrega. Obra do acaso? O padeiro encostou na porta? Um
gesto estabanado da duquesa. Sei lá!
Papai manteve o entregador sob suspeita e reafirmou a
eficiência do seu esquema.
O entregador foi beneficiado. Vítima da tampa caída e não da bala
perdida, voltou a estudar. Ainda bem!
- Não quero essa vida não. Confidenciou ao Roberto.
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