quinta-feira, 5 de julho de 2018

Roberto na área médica


            Aplicar injeções e furar lóbulos de orelhas para colocar brincos, são atividades da área médica e que exigem habilidades específicas. Certo?
Em condições normais, sim. Mas, quando o Roberto entra na jogada, tudo fica diferente. Afinal - pensando bem - não são tarefas tão complexas assim que um bom mecânico de motos não possa realiza-las.
            Naquela tarde o Roberto estava agitado procurando uma rolha e remexendo o velho estojo de metal onde mamãe guardava seringas e agulhas.
            - Vou furar a orelha de “fulano”.
            - O que !?
Não lembro a quem se referia. Perguntei recentemente à mamãe. Ela acha que era um colega dele, talvez o Dayan.
O procedimento era simples, bastava apoiar o lóbulo na rolha, perfurar com agulha higienizada e deixar a perfuração preenchida por um fio de linha por alguns dias.
- Deu certo, Roberto?
- Lógico! Quer dizer… Mais ou menos.
- Como assim?
- O furo ficou torto. Enfiei a agulha de cima para baixo, na diagonal, e não retinho.
- Que droga! E agora?
- Tranquilo. Está tudo bem. E só enfiar o brinco também na diagonal.
Entendi. Ainda bem que deu tudo certo.
O episódio da injeção foi anterior.
Mamãe - que na juventude foi auxiliar de enfermagem - aplicava injeções nos vizinhos, amigos e parentes. O estojo metálico com seringas e agulhas estava sempre à mão, porque  os pedidos eram constantes. Certa tarde o Roberto pegou o conhecido estojo, montou a seringa com uma agulha usada só para extrair líquido das ampolas,  espetou legumes  e uma boneca da mamãe. Diante da minha surpresa, retirou a agulha e simulou dar injeção no meu braço.
- Que isso, Roberto?
- Dona “fulana” (não lembro o nome) vem tomar injeção daqui a pouco.
- Mas mamãe saiu e só voltará bem mais tarde.
- Falei isso, mas ela perguntou se eu não poderia aplicar. Disse que é uma injeção simples e que tem hora certa.
- O que você respondeu?
- Ué! Que posso. Ela está precisando, não está? Já vi mamãe fazendo isso um monte de vezes, e dou injeções no King (nosso cachorro). É só treinar um pouquinho.
            E aí? Deu certo?
Não apenas deu certo, como a senhora só queria tomar injeção como ele. Ela dizia:
- Robertinho tem a mão levinha. Agente nem sente.
Tínhamos trauma de injeções. Vovó era assistente de enfermagem e trabalhou em muitos postos de saúde. Experiência não faltava, mas temíamos o modo dela aplicar mais do que a injeção propriamente dita. Aquela sim tinha a mão pesada. Imagino que, se fosse hoje, diria:
- Vem cá, moleque. Deixa de frescura.
Na época tinha aquele papo de que “você já é um homenzinho” e que “homem não chora”. Por via das dúvidas, para não termos a masculinidade questionada - coisa séria no subúrbio - eu e Roberto optávamos por tomarmos injeções com mamãe. Qualquer vacilação nossa vinha logo a ameaça:
- Vou chamar sua vó.
Roberto continuou aplicando injeções em animais.
Não me lembro quando encerrou sua carreira com os humanos. Uma bela carreira. Saiu no apogeu.

Gilberto, irmão

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