Aplicar
injeções e furar lóbulos de orelhas para colocar brincos, são atividades da área
médica e que exigem habilidades específicas. Certo?
Em condições
normais, sim. Mas, quando o Roberto entra na jogada, tudo fica diferente.
Afinal - pensando bem - não são tarefas tão complexas assim que um bom mecânico
de motos não possa realiza-las.
Naquela
tarde o Roberto estava agitado procurando uma rolha e remexendo o velho estojo
de metal onde mamãe guardava seringas e agulhas.
-
Vou furar a orelha de “fulano”.
-
O que !?
Não lembro a
quem se referia. Perguntei recentemente à mamãe. Ela acha que era um colega
dele, talvez o Dayan.
O procedimento
era simples, bastava apoiar o lóbulo na rolha, perfurar com agulha higienizada
e deixar a perfuração preenchida por um fio de linha por alguns dias.
- Deu certo,
Roberto?
- Lógico! Quer
dizer… Mais ou menos.
- Como assim?
- O furo ficou
torto. Enfiei a agulha de cima para baixo, na diagonal, e não retinho.
- Que droga! E
agora?
- Tranquilo.
Está tudo bem. E só enfiar o brinco também na diagonal.
Entendi. Ainda
bem que deu tudo certo.
O episódio da injeção
foi anterior.
Mamãe - que na
juventude foi auxiliar de enfermagem - aplicava injeções nos vizinhos, amigos e
parentes. O estojo metálico com seringas e agulhas estava sempre à mão, porque os pedidos eram constantes. Certa tarde o
Roberto pegou o conhecido estojo, montou a seringa com uma agulha usada só para
extrair líquido das ampolas, espetou
legumes e uma boneca da mamãe. Diante da
minha surpresa, retirou a agulha e simulou dar injeção no meu braço.
- Que isso,
Roberto?
- Dona
“fulana” (não lembro o nome) vem tomar injeção daqui a pouco.
- Mas mamãe
saiu e só voltará bem mais tarde.
- Falei isso,
mas ela perguntou se eu não poderia aplicar. Disse que é uma injeção simples e
que tem hora certa.
- O que você
respondeu?
- Ué! Que
posso. Ela está precisando, não está? Já vi mamãe fazendo isso um monte de
vezes, e dou injeções no King (nosso cachorro). É só treinar um pouquinho.
E
aí? Deu certo?
Não apenas deu
certo, como a senhora só queria tomar injeção como ele. Ela dizia:
- Robertinho tem
a mão levinha. Agente nem sente.
Tínhamos
trauma de injeções. Vovó era assistente de enfermagem e trabalhou em muitos
postos de saúde. Experiência não faltava, mas temíamos o modo dela aplicar mais
do que a injeção propriamente dita. Aquela sim tinha a mão pesada. Imagino que,
se fosse hoje, diria:
- Vem cá,
moleque. Deixa de frescura.
Na época tinha
aquele papo de que “você já é um homenzinho” e que “homem não chora”. Por via
das dúvidas, para não termos a masculinidade questionada - coisa séria no
subúrbio - eu e Roberto optávamos por tomarmos injeções com mamãe. Qualquer
vacilação nossa vinha logo a ameaça:
- Vou chamar
sua vó.
Roberto
continuou aplicando injeções em animais.
Não me lembro
quando encerrou sua carreira com os humanos. Uma bela carreira. Saiu no apogeu.
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