Poção Mágica com pasta de dente
Papai saiu do banheiro esbravejando com
uma pasta de dente amassada na mão:
- Minda! A pasta de dente está estragada.
Veja! Completamente aguada.
Jogou o tubo no lixo da cozinha e
saiu danado da vida.
Mamãe, de relance, nos viu, quietinhos e
com os olhos arregalados. Percebeu logo que a culpa não era da Colgate, a marca de
pasta de dente preferida do papai. Esperou ele sair e perguntou:
- Quem colocou água na pasta de
dente?
Sem esperar resposta, disse:
- Não façam mais isso.
Era o primeiro e último aviso, sabíamos
disso. Corríamos perigo, pois a pasta aguada era só uma parte dos componentes
de uma poção mágica idealizada por nossa imaginação infantil.
Poção mágica? Isso, estávamos
impressionados com um filme no qual um bruxo, entre risadas espalhafatosas e
gestos histriônicos, compôs uma fórmula poderosa, capaz de tornar invisível
quem inalasse seu vapor. Com poucos componentes, fez a água borbulhar e soltar uma
fumaça esverdeada.
Resolvemos produzir a nossa própria
fórmula, envolvendo materiais de limpeza e cosméticos. Aí é que entrou a pasta
de dente. Roberto se lembrou da sua cor verde que, segundo o fabricante, indicava
a presença de clorofila, eficaz no combate à carie. O problema é que usamos o
tubo quase todo. O que fazer? Inocência infantil! Preencher com água. É obvio!
Deu certo? A poção ganho a tonalidade
desejada? Não. Tivemos que apelar para um corante. Sacrificamos uma pipa novinha, arrancando o papel de seda
verde que, posto na água, a coloriu rapidinho.
A coloração, o cheiro e a
consistência se alteravam, mas nada de produzir a desejada fumaça esverdeada.
Mamãe, estranhando o silêncio, já tinha nos chamado algumas vezes. Numa delas
gritou junto:
- Que cheiro é esse?
Estava ficando perigoso. Fomos salvos por
um gesto estabanado que entornou o líquido.
Não alcançamos a invisibilidade
desejada, mas escapamos ilesos da varinha (chinelo) mágica de mamãe.