Roberto não gostava de motoristas impacientes no trânsito. Reclamava especialmente daqueles que buzinavam, mal o sinal abria. Dizia:
- Ficam com a mão na buzina. Não dá nem tempo para engatar a marcha. Se lembra Gil. Você quase se ferrou, junto com as crianças, por causa de um “apressadinho” desses.
Referia-se a um quase acidente numa antiga passagem de trem de Campo Grande, onde havia uma cancela eletrônica que sinalizava a aproximação do trem com som e luzes piscando. Só mais tarde construíram um viaduto e os frequentes acidentes cessaram. Num deles morreu um amigo do papai, se não me engano, de nome Cardoso.
Era um domingo e íamos em caravana almoçar na casa da vovó Maria, na Vila Kennedy, na ocasião um bairro popular, de intensa vida comunitária e sem presença de traficantes ou milicianos. Parei na cancela ao ouvir o som de alerta, sendo o primeiro da fila. Atrás de mim parou o “apressadinho”, depois o Padilha e, mais atrás, o Roberto. O trem passou e o “apressadinho” colou a mão na buzina. Cheguei a avançar, mas, como o som da sinaleira continuava ativo, freei. Sorte a nossa.
Aconteceu um fenômeno raro e traiçoeiro. Dois trens cruzaram a passagem com diferença de segundos. Caso tivesse avançado, seria arrastado pelo segundo trem. O Padilha e o Roberto ficaram desesperados porque não podiam buzinar para me alertar e temiam pela minha conhecida desatenção. Ainda bem que, dessa vez, estava atento.
Roberto desenvolveu uma estranha teoria sobre os maus motoristas e um modo de puni-los. Segundo ele carros com a frase “Jesus é fiel” no para-brisa, têm os piores motoristas.
Sei lá de onde ele tirou isso. Sempre que podia ele reafirmava a teoria:
- Olha lá, não disse! Fez merda e ainda coloca o adesivo “Jesus é fiel”.
Curiosa teoria. Preconceituosa, certamente, mas com o mérito de tirar o foco das mulheres. Além de denunciar a incoerência entre uma opção religiosa, aparentemente do bem, e uma prática agressiva que coloca pessoas em risco.
Em duas ocasiões, para meu desespero, ele aplicou a referida punição.
O apressadinho buzinou, antes mesmo do sinal abrir. Roberto calmamente abriu a porta do carro. Caminhou até a dianteira, levantou o capô e sinalizou para o “apressadinho” que o carro tinha enguiçado. Foi um caos: buzinas de todos os lados, sinal fechando e abrindo e palavrões. Ele curtia. Quando achava que a lição já era suficiente, fechava a capô e voltava com o velho sorriso maroto.
Ele me contou que, certa vez, diante do caos, indicou para o apressadinho que a melhor solução era empurrar o carro para liberar o trânsito. Fazer que! O apressadinho teve que ajudar a tirar o obstáculo da frente.
Imagina a situação! Agora, além de apressado, o sujeito estava suado e verdadeiramente atrasado.
Acabamos de ver o Roberto na versão, “O Vingador”.
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