quinta-feira, 24 de maio de 2018

Roberto ralou o nariz para manter as mãos aquecidas.



Roberto não gostava de sentir frio. Bastava baixar alguns graus para se encolher, curvar ainda mais os ombros e exagerar nos agasalhos. Preferia os que tinham bolsos, para manter as mãos aquecidas.
Na adolescência fez um poncho que o acompanhou por vários invernos. Simplesmente cortou um cobertor em formato quadrado e, com a ajuda de mamãe, fez a abertura no centro e os acabamentos.
Defendia a ideia dizendo:
                - No inverno, o ideal é não sair debaixo do cobertor. E ria.
                A noite completava a vestimenta com um estranho chapéu de feltro; uma mistura de bruxo, hippie e Indiana Jones.
                Certa noite de inverno foi comprar algo no armazém e voltou com os joelhos e o nariz  arranhados.
 - O que foi isso? Perguntei.
- Caí. Vim correndo e caí.
- Machucou as mãos?
- Não. E mostrou as mãos sem nenhum arranhão.
- Como você conseguiu arranhar os joelhos e o nariz sem machucar as mãos?
- Estava com as mãos nos bolsos.
- Por que não tirou as mãos dos bolsos para correr? Não sabe que é perigoso?
- Tá maluco! Com um frio desses?
Estava convicto que fez um bom negócio ao trocar o nariz ralado pelas mãos quentinhas.

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