Roberto
e suas manias.
Roberto
tinha suas manias.
Uma
delas era identificar barulhos nos carros.
Barulhos não: barulhinhos.
Uma
habilidade útil para regular o funcionamento de motores, encontrar a compressão
ideal e o ponto exato de aceleração. Mas nos meus primeiros carros – calejados
pelas estradas da vida - os barulhos faziam parte da identidade. Nem os considerava
barulhos. Eram os meus barulhos.
Pior é
que Roberto exigia minha cumplicidade. Queria que eu também identificasse pequenos
ruídos. Sutilezas que só os ouvidos dele captavam.
-
Escuta, Gil. Está ouvindo? É lá atrás, do lado do motorista. Escutou?
- Não.
-
Espera aí.
Lá ia
ele mexer em alguma coisa. Voltava satisfeito.
-
Agora podemos ir. Passou. Era o banco solto.
Ele
acabara de resolver um problema que eu nem sabia que existia. Um exagero. Me
sentia perfeitamente capaz de identificar o barulho de uma roda caindo, de um
motor explodindo e até o trepidar da tampa do capo mal fechada numa estrada
esburacada. Mas ele era exigente demais. E não sossegava enquanto não
concertava. Meus carros ficavam irreconhecíveis. E causava problemas. Várias
vezes liguei o carro já ligado porque não escutava os ruídos característicos.
Manias
do Roberto.
Não podia ser perfeito.
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