sábado, 14 de abril de 2018

Manias do Roberto 1: identificar pequenos barulhos


Roberto e suas manias.

Roberto tinha suas manias.
Uma delas era identificar barulhos nos carros. 
Barulhos não: barulhinhos.
Uma habilidade útil para regular o funcionamento de motores, encontrar a compressão ideal e o ponto exato de aceleração. Mas nos meus primeiros carros – calejados pelas estradas da vida - os barulhos faziam parte da identidade. Nem os considerava barulhos. Eram os meus barulhos.
Pior é que Roberto exigia minha cumplicidade. Queria que eu também identificasse pequenos ruídos. Sutilezas que só os ouvidos dele captavam.
- Escuta, Gil. Está ouvindo? É lá atrás, do lado do motorista. Escutou?
- Não.
- Espera aí.
Lá ia ele mexer em alguma coisa. Voltava satisfeito.
- Agora podemos ir. Passou. Era o banco solto.
Ele acabara de resolver um problema que eu nem sabia que existia. Um exagero. Me sentia perfeitamente capaz de identificar o barulho de uma roda caindo, de um motor explodindo e até o trepidar da tampa do capo mal fechada numa estrada esburacada. Mas ele era exigente demais. E não sossegava enquanto não concertava. Meus carros ficavam irreconhecíveis. E causava problemas. Várias vezes liguei o carro já ligado porque não escutava os ruídos característicos.
Manias do Roberto. 
Não podia ser perfeito.

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