Todo menino criado em Campo Grande nas
décadas de 1960 e 1970 sabia de cor as épocas das principais brincadeiras. O
ano começava com as pipas e, no início das aulas, em março, era a vez das bolas
de gude. Em julho as pipas voltavam para uma curta temporada, pois logo depois,
chegavam os piões, junto, novamente, com as bolas de gude.
Não era uma divisão rígida, até
porque havia pipas o ano inteiro. Nas férias esta brincadeira apenas se
acentuava, tornando-se, como mamãe dizia, uma verdadeira febre. As bolas de
gude realmente dividiam as temporadas, mas os piões nem sempre apareciam e, no
final da década de 1970, sumiram de vez.
Roberto, era habilidoso com as bolas
de gude e, jogando à vera, acumulava centenas delas em latas de Leite Ninho. A
lata guardada com mais cuidado, perto da cabeceira, continha as “olho de gato”.
Com mira certeira, era o melhor no mata-mata, mas as quantidades maiores ele
ganhava nos jogos de búlica e triângulo. Nas jogadas decisivas apertava os
olhos, deixando um deles quase fechados, mordia os lábios e disparava. Aguardávamos
com a respiração suspensa, num misto de “tomara que erre” com o orgulho de
presenciar um dos bons em ação.
Roberto não gostava de futebol, a
brincadeira preferida da garotada. Especializou-se em pipas e preferia soltar
as que ele próprio fazia. Traziam sua marca. Todos identificavam: é do
Robertinho. Várias vezes atendi a campainha e, olhado por cima do
muro, via um garoto com uma pipa na mão:
- É do Robertinho. Caiu lá em casa.
Outras vezes sua pipa voava e caia em outra
rua. Ele disparava de bicicleta, num “já volto”. Voltava com a pipa:
- Me entregaram.
Confiavam no Robertinho. Ele também entregava
as que caia lá em casa. Eu já nem tentava esconder. Ele não dizia nada, mas me
reprovava com o olhar.
Era ousado. Buscava adversários à distância. Sua lata
tinha enrolados dois carreteis “10 dos grandes”. Enquanto eu preferia aguardar e
ser “buscado”, desenvolvendo estratégias defensivas, ele ia buscar longe. A
garotada parava para ver: Robertinho está cruzando. Nem sempre se dava bem, mas
ganhava respeito pela ousadia.
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