Papagaio 2
Voltamos ao
Rio (1966) e encontramos a cidade abalada por uma das maiores enchentes de sua
história. Imediatamente nos engajamos em campanhas de solidariedade. Papai
instalou um autofalante no fusquinha e percorríamos os bairros para coleta de donativos. Tivemos também a
nossa tragédia particular porque a casa da vovó Maria, próxima ao canal da rua
Arthur Rios, foi atingida.
E o papagaio?
Onde colocá-lo?
Depois de
quase dois meses juntos, ele adquirira intimidade suficiente para reivindicar
um lugar privilegiado ao lado da família. Roberto foi derrotado na tentativa de
instalá-lo no quarto e passou a defender a copa. Varanda, nem pensar! A
polêmica foi acalorada, mas venceu a copa, com a observação de mamãe de que seria
provisório. Um provisório que durou anos. Favoreceu o fato da casa estar
em obras, com as paredes só emboçadas e o chão sem cerâmica. Aquelas obras do
papai que levava anos para serem concluídas. Demorava tanto que ele mudava
a concepção e refazia tudo.
O Papagaio gostou.
Foi a época em que mais desenvolveu a linguagem, porque participava conosco do
dia-a-dia e, durante as refeições, se intrometia nas conversas.
- Cala a boca,
Papagaio. Vamos falar um de cada vez.
Reclamávamos.
E ele nem aí.
Um imprevisto
nos obrigou a remanejá-lo, dentro da própria área.
Muito
inquieto, com unhas e bico fortes, ele esburacou o tijolo e ameaçou alcançar o banheiro. Aí era demais! Além de linguarudo, era bisbilhoteiro, ameaçando
nossa intimidade.
No final da
tarde ele se agitava na expectativa do passeio. Roberto o colocava no guidom da
bicicleta e circulava pela vizinhança. Sucesso absoluto. Todos paravam para
olhá-lo e o desafiar a falar. Ele retribuía os cumprimentos, ainda que fosse
apenas com um crispar de penas ou um balançar de rabo.
Por falar em
penas eriçadas, ele adorava um cafuné. Fechava os olhinhos e ia abaixando a
cabeça até perder o equilíbrio. Era muito engraçado vê-lo com olhar sonolento,
tonto, como a perguntar: - “Onde estou? Quem sou? De onde vim?”
Não era meigo
o tempo todo. Vez por outra se enfezava e dava voos rasantes em direção aos
incautos. Não sei exatamente qual o critério, o certo é cismava com algumas
pessoas. Tinha um temperamento apaixonado. Quando gostava, se entregava às
carícias, caso contrário esbanjava mal humor e agressividade. Roberto era dos
preferidos, mas também não dava mole. Resolvia as crises de mal humor do Papagaio,
agarrando o bichinho e dando-lhe uma “escovada”. Como bom “Papagaio de malandro”,
ele se acalmava. Papai abusava,
colocando-o no colo, dentro da camisa, na careca e nos ombros, seu lugar
preferido.
Piolho, nosso amigo, foi uma das
paixões o Papagaio, o que, causou ciúmes em papai. O Papagaio
protegia sua nova paixão, não deixando ninguém se aproximar; nem papai. Chegou
a avançar sobre ele que, indignado, ameaçou transferi-lo para o quintal, e deixou de falar com ele por vários dias.
Tinha também
nostalgias. Nessas ocasiões pouco falava e se retirava para os cantos ou galhos
mais altos das árvores. As vezes voava para longe, chegando a desaparecer por
dias. Roberto percorria os arredores de bicicleta e acionava sua rede de
amigos, trazendo-o de volta. Quando isso se tornava frequente, cortávamos um
pouco as penas de uma de suas asas. Saudades da Bahia ou falta de uma fêmea?
Devo confessar aqui nossas dúvidas quanto ao sexo do Papagaio. Pensávamos nele
como macho, mas alguns amigos, pretensos conhecedores, afirmavam ser fêmea. A
verdade é que não o ajudamos a resolver a possível crise de identidade, pois
continuamos tratando-o como macho.
Lembro que ele cantava "meu coração, bate feliz, qd te vê..."
ResponderExcluirE costumava gritar: "Caio, vai trabalhar".
Felipe, sobrinho