sábado, 14 de abril de 2018

Animais do Roberto 10: Papagaio 2


Papagaio 2

Voltamos ao Rio (1966) e encontramos a cidade abalada por uma das maiores enchentes de sua história. Imediatamente nos engajamos em campanhas de solidariedade. Papai instalou um autofalante no fusquinha e percorríamos os bairros  para coleta de donativos. Tivemos também a nossa tragédia particular porque a casa da vovó Maria, próxima ao canal da rua Arthur Rios, foi atingida.
E o papagaio? Onde colocá-lo?
Depois de quase dois meses juntos, ele adquirira intimidade suficiente para reivindicar um lugar privilegiado ao lado da família. Roberto foi derrotado na tentativa de instalá-lo no quarto e passou a defender a copa. Varanda, nem pensar! A polêmica foi acalorada, mas venceu a copa, com a observação de mamãe de que seria provisório. Um provisório que durou anos. Favoreceu o fato da casa estar em obras, com as paredes só emboçadas e o chão sem cerâmica. Aquelas obras do papai que levava anos para serem concluídas. Demorava tanto que ele mudava a  concepção e refazia tudo.
O Papagaio gostou. Foi a época em que mais desenvolveu a linguagem, porque participava conosco do dia-a-dia e, durante as refeições, se intrometia nas conversas.
- Cala a boca, Papagaio. Vamos falar um de cada vez.
Reclamávamos. E ele nem aí.
Um imprevisto nos obrigou a remanejá-lo, dentro da própria área.
Muito inquieto, com unhas e bico fortes, ele esburacou o tijolo e ameaçou alcançar o banheiro. Aí era demais! Além de linguarudo, era bisbilhoteiro, ameaçando nossa intimidade.
No final da tarde ele se agitava na expectativa do passeio. Roberto o colocava no guidom da bicicleta e circulava pela vizinhança. Sucesso absoluto. Todos paravam para olhá-lo e o desafiar a falar. Ele retribuía os cumprimentos, ainda que fosse apenas com um crispar de penas ou um balançar de rabo.
Por falar em penas eriçadas, ele adorava um cafuné. Fechava os olhinhos e ia abaixando a cabeça até perder o equilíbrio. Era muito engraçado vê-lo com olhar sonolento, tonto, como a perguntar: - “Onde estou? Quem sou? De onde vim?”
Não era meigo o tempo todo. Vez por outra se enfezava e dava voos rasantes em direção aos incautos. Não sei exatamente qual o critério, o certo é cismava com algumas pessoas. Tinha um temperamento apaixonado. Quando gostava, se entregava às carícias, caso contrário esbanjava mal humor e agressividade. Roberto era dos preferidos, mas também não dava mole. Resolvia as crises de mal humor do Papagaio, agarrando o bichinho e dando-lhe uma “escovada”. Como bom “Papagaio de malandro”, ele se acalmava.  Papai abusava, colocando-o no colo, dentro da camisa, na careca e nos ombros, seu lugar preferido.
Piolho, nosso amigo, foi uma das paixões o Papagaio, o que, causou ciúmes em papai. O Papagaio protegia sua nova paixão, não deixando ninguém se aproximar; nem papai. Chegou a avançar sobre ele que, indignado, ameaçou transferi-lo para o quintal,  e deixou de falar com ele por vários dias.
Tinha também nostalgias. Nessas ocasiões pouco falava e se retirava para os cantos ou galhos mais altos das árvores. As vezes voava para longe, chegando a desaparecer por dias. Roberto percorria os arredores de bicicleta e acionava sua rede de amigos, trazendo-o de volta. Quando isso se tornava frequente, cortávamos um pouco as penas de uma de suas asas. Saudades da Bahia ou falta de uma fêmea? Devo confessar aqui nossas dúvidas quanto ao sexo do Papagaio. Pensávamos nele como macho, mas alguns amigos, pretensos conhecedores, afirmavam ser fêmea. A verdade é que não o ajudamos a resolver a possível crise de identidade, pois continuamos tratando-o como macho.

Um comentário:

  1. Lembro que ele cantava "meu coração, bate feliz, qd te vê..."
    E costumava gritar: "Caio, vai trabalhar".

    Felipe, sobrinho

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