Carrinhos
de rolimãs
Carrinhos de rolimãs possuem uma estrutura
simples: basicamente dois eixos com rolimãs nas extremidades e uma tábua na
qual os eixos são fixados. Certo? Em termos. O Roberto sofisticava essa
estrutura, aprimorando o sistema de freio, a estabilidade, a aerodinâmica, o
conforto e a beleza. Não é fácil fazer isso dentro dos limites conservadores,
ou seja, mantendo a essência da tecnologia e do material original, a madeira.
Detalhes faziam a diferença: a qualidade das rolimãs, o uso de quatro rolimãs
na traseira, o tamanho do eixo dianteiro diferente do traseiro, a extensão da
plataforma e a inclinação do banco.
Deixo as sutilizas técnicas para os entendidos
e fico com a estética. Os carrinhos do Roberto se destacavam visualmente pelo
colorido e cuidados com o acabamento. Certa ocasião o encontrei compenetrado
olhando para a tábua de passar roupas da mamãe. Me aproximei intrigado e ouvi a
exclamação:
- Não é perfeita! Um pouco pequena,
mas dá-se um jeito.
Falava mais para si do que comigo.
Eu conhecia aquela cara de quem vai aprontar e perguntei de gozação:
- Vai passar roupa?
Ele me olhou como quem diz: isso não
merece resposta.
Compreendi tudo:
- Você não está pensando em fazer o
que estou pensando?
- Estou. Só preciso reforçar um pouco
para ela não curvar e arrastar no chão ...
- Vai dar merda! Mamãe vai sentir
falta da tábua.
- Por isso ainda não fiz, mas ela usa
pouco. Prefere passar roupa na mesa. A tábua está encostada.
Naquele fim de semana inaugurou o
“carrinho de passar roupas”, como ficou conhecido. Um sucesso, apesar do exagero
dos equipamentos usados pelo. Roberto: macacão, joelheira e capacete. Conseguem
imaginar a cena de alguém de capacete sobre um carrinho de rolimã. Pois é! Ele levava
mesmo a sério aquelas corridas e usava o carisma para fazer estilo. Fosse outro
pareceria ridículo.
Corrida de carrinhos de rolimãs. Era
assim que nos referíamos, mesmo não se encaixando no conceito clássico de
corrida. Raramente havia uma competição propriamente dita. Valia a performance
individual consagrada por aplausos e gritos, ou pela rejeição, com vaias e xingamentos.
A coisa era anárquica. Os grupos chegavam
aos poucos e, com maior intensidade, após as 22h. Havia diversos pontos de concentração.
De repente, do nada soava o grito:
- Carriiiiiiinho! Libera a pista.
Imediatamente quem estivesse no
percurso se posicionava para afastar pessoas e automóveis. Formava-se uma rede
para proteger o louco da vez. Os mais populares eram logo reconhecidos e atraiam
a galera para a beira da pista.
- É o Robertinho descendo!
A tensão antecedia a consagração.
Primeiro ouvia-se o ruído das rolimãs no asfalto,
depois o carrinho aparecia na curva, cortando junto ao meio fio, para, logo a
seguir, abrir na contramão, e voltar ao centro da pista para o cavalo de pau e
rodopios.
Roberto era bom nisso. É verdade de nem sempre chegava
em cima do carrinho e que os arranhões eram inevitáveis.
As primeiras experiências foram na pequena
inclinação da Rua Sacramento Blaque, com a ajuda dos empurrões dos amigos.
Passamos para a Rua dos Limoeiros, cuja curta ladeira era mais inclinada.
Depois fomos para a estrada do Rio da Prata, onde havia uma ladeira mais íngreme,
numa rua transversal, próxima ao bairro Arnaldo Eugênio. A coisa ganhou proporções
maiores quando fomos para o Mendanha e, mais ainda, para o Alto da Boa Vista. No
Mendanha curtimos os melhores momentos. No alto da Boa Vista a brincadeira
virou insanidade porque ocorria em meio
aos pegas de carros e motos. Até o Roberto recuou e deixou de participar.
No Mendanha as corridas contaram com o apoio de
algumas pais, sem os quais ficaria difícil transportar os carrinhos e, a cada
descida, levá-lo de volta até o alto para uma nova descida. O Antônio Padilha,
que na ocasião tinha um Jipe, no qual adaptou um pioneiro sistema à gás, e o
Carlos Padilha eram os mais frequentes apoiadores. Saíamos em caravana
acompanhados por motos em clima de festa.
Gilberto, irmão
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